Por Bia Rossatti
Por anos no consultório atendendo casais eu ouvi uma cena que se repete em milhares de empresas familiares. O casal acorda cedo, fala sobre fornecedores, clientes, vendas, fluxo de caixa, metas e funcionários. Passa o dia resolvendo problemas. À noite, continua discutindo assuntos da empresa. Quando finalmente chega a hora de dormir, o cansaço vence qualquer tentativa de conversa mais profunda.
Sem perceber, marido e mulher deixam de ser companheiros e passam a atuar apenas como sócios. E há uma crença por trás desse comportamento: “Quando a empresa estiver estabilizada, teremos tempo para cuidar do nosso relacionamento.”
Infelizmente, esse dia raramente chega. Porque empresas exigem manutenção constante. E os relacionamentos também.
O maior patrimônio da empresa pode ser o casamento.
Muitos casais acreditam que investir no negócio é investir na família. Em parte, isso é verdade. Uma empresa saudável gera segurança financeira, oportunidades e realiza sonhos. Mas existe uma pergunta que poucos fazem: De que adianta construir um patrimônio milionário se, no caminho, o relacionamento vai à falência?
Muitos dos divórcios que hoje acontecem foram motivados pela inabilidade dos casais de fazer a gestão não somente da empresa, mas de seu relacionamento.
É comum encontrar casais que comemoram o crescimento do faturamento enquanto convivem com o aumento do distanciamento emocional. A empresa prospera. O caixa cresce. O casamento sobrevive – até que um dia deixa de sobreviver.
O problema nunca foi a empresa ou trabalhar juntos.
O problema é esquecer de viver juntos. Empreender ao lado de quem se ama pode ser uma das experiências mais gratificantes da vida. Mas também pode se tornar uma das mais desgastantes quando todas as conversas giram em torno da empresa. Por que?
A sociedade fortalece o negócio.
A conjugalidade fortalece o casal.
São duas relações diferentes. E ambas precisam de investimento.
“Mas estamos fazendo isso é pela nossa família mesmo?
Estar se “sacrificando” não estar colocando o relacionamento dentro das prioridades talvez seja a justificativa mais frequente. E ela nasce de uma intenção legítima.
O casal quer oferecer estabilidade, conforto e segurança. No entanto, muitos filhos crescem vendo pais extremamente bem-sucedidos profissionalmente, mas emocionalmente distantes um do outro. O legado que permanece não é apenas a empresa. E não duvidem, eles sentem isso e passam a acreditar que o trabalho é mais importante do que o relacionamento
Muitos desses filhos evitam até o casamento. É o modelo de relacionamento que eles testemunharam dentro de casa.
“Agora não temos tempo.”
Essa é apenas uma das desculpas, pois tempo é uma questão de prioridade.
Quando surge um problema importante na empresa, reuniões são marcadas, agendas são reorganizadas e soluções aparecem. Mas quando o casamento dá sinais de desgaste, muitos acreditam que basta esperar a fase passar. Ou dizem aquela frase famosa. DR (discutir a relação) ´só piora.
Preste atenção
Relacionamentos não melhoram apenas com o passar do tempo. Eles melhoram quando recebem atenção. Assim como uma empresa precisa de planejamento, indicadores e reuniões estratégicas, a vida conjugal também precisa de espaço, diálogo e intenção.
“Nós quase não brigamos.”
Muitos interpretam a ausência de conflitos como sinal de um casamento saudável. Nem sempre. Às vezes, o silêncio apenas substituiu a intimidade. O casal conversa sobre contas, funcionários, impostos e contratos e acredita que isso é diálogo, isso que é parceria.
Mas já não falam sobre sonhos, medos, expectativas ou sentimentos. Não existe conflito. Mas também não existe conexão.
O maior desejo de todo casal empreendedor
No fundo, nenhum casal constrói uma empresa apenas para ganhar dinheiro. Constrói porque deseja uma vida melhor. Mais liberdade. Mais qualidade de vida. Mais tempo juntos. Mais realizações compartilhadas.
O paradoxo é que muitos alcançam sucesso financeiro enquanto se afastam justamente da pessoa com quem sonharam tudo isso. E vão depois de um divórcio viver isso com outro parceiro(a).
Mas não se esqueça, que a empresa depende do casal muito mais do que parece.
Quando o relacionamento está fragilizado, a empresa sente. As decisões ficam mais difíceis. Os conflitos profissionais se misturam às mágoas pessoais. A comunicação perde qualidade. A confiança diminui. A sinergia desaparece. Os filhos percebem. Os colaboradores percebem. Os clientes, muitas vezes, também.
Um casamento fortalecido não é apenas um benefício para a vida pessoal. É um ativo estratégico para qualquer empresa familiar.
A verdade que poucos dizem
Casais empreendedores costumam investir em consultorias, treinamentos, planejamento estratégico, inovação e tecnologia. Tudo isso faz sentido.
Mas poucos investem com a mesma dedicação na relação que sustenta todas essas conquistas. Nenhuma empresa cresce de forma consistente quando seus sócios deixam de confiar um no outro.
Com o casamento acontece exatamente o mesmo. O relacionamento também precisa de reuniões estratégicas. Assim como vocês reservam tempo para analisar resultados da empresa, reservem tempo para cuidar daquilo que deu origem a esse projeto de vida.
Conversem como marido e mulher, não apenas como gestores. Façam perguntas que não tenham relação com faturamento. Celebrem pequenas conquistas. Criem momentos em que a empresa fique do lado de fora da conversa. E façam isso não apenas nos períodos de férias e, nos períodos de férias limitem o acesso das questões da empresa.
Porque antes de existirem metas, contratos e resultados, existia um casal. E, se esse casal enfraquece, nenhum sucesso empresarial consegue preencher o vazio deixado pela ausência de conexão.
Empresas podem ser reconstruídas. Patrimônios podem ser recuperados. Mas o tempo perdido na relação não volta. Investir na empresa é importante.
Investir no casamento é indispensável. Porque, no fim das contas, o maior negócio que vocês administram todos os dias é a própria relação.
Faça isso antes que um dos cônjuges um belo dia pega suas coisa e vai embora – em silêncio, marca de todo um tempo em que não pode falar pois pode ter sido ignorado, mal interpretado ou ate mesmo tratado com indiferença e desrespeito.
Claro! Aqui está uma versão mais enxuta e elegante:
Sobre a autora
Maria Beatriz Rossatti é terapeuta familiar especialista em relacionamentos, casais e famílias, criadora do Método A Rota da Cura e Recomeço® e coautora do livro A Família Empresária: Empreendedores, Empresas, Famílias e seus Desafios. Atua ajudando pessoas e casais a fortalecerem seus vínculos, unindo conhecimento, experiência e desenvolvimento humano.



