* Por Poetisa Thaisy Moraes
Instagram: thaisymoraespoetisa
Eu deito o tempo na minha cama, desarrumada de vida escassa. Eu deito os anos de mal vivências. Eu deixo ir a negligência. Eu deito tudo que já passou e adormeço o que está por vir. Em sono leve, vão-se as festas da Alma pronta a renascer.
Eu deito a vida, tão preciosa, em linho fino, cetim macio. Eu deito e durmo profundamente. De tão intenso, não abro os olhos. Eu deixo o mundo assim, tão breve.
Eu vivo o aporte da despedida. A dor de tudo que se desmancha. Não sou mais eu, no conteúdo, esparramado naquela cama desguarnecida. Uma matéria tão singular se desfazendo, voraz, no tempo. Dormi, em vida, o sono leve.
O cobertor, de longos anos, já não esquenta a carne fria. Não há calor que equilibre a diferença, a escassez de sintonia. O travesseiro não incomoda por ser mais alto do que deveria. Vão-se os anéis junto com os dedos. As luvas, brancas, acompanhando, seguem o caminho da extinção.
O colchão, já sem espuma, não incomoda as costas firmes. Talvez cause importunação a quantidade de ideais. Princípios tolos, olhando fora, não libertaram o espírito ávido da corrente da escravidão que se firmava no imaginário, na ilusão de se manter aquela cama bem ordenada.
Eu deito os sonhos, felizes anseios. Deixo dormir as esperanças. Nasci tão livre de preconceitos. Vivi a vida para aprender a desfazer limitações. Desconstruindo o que firmei pelos caminhos atravessados, vaguei no mundo e me encontrei dentro de mim, num quarto escuro. Como o pulsar, ininterrupto, do coração que muito amou, deixei o ponto de origem seguindo, em curvas, até o tempo que já cessou. Jaz aqui e aqui estou.
Eu deito a vida de uma vez. Deixo dormir a alma breve. Vivi a vida dos bons medíocres. Durmo, com êxito, o sono dos justos. Desacordado dos compromissos, visito, em morte, a nobre vida.
Lembre-se: segunda é dia de aroma de poesia! 😉
*Thaisy Moraes é servidora pública municipal responsável pelo setor de Patrimônio do Município de São Carlos/SC, biomédica formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), escritora e poetisa há treze anos: “Escrevo há treze anos sobre tristezas e alegrias, e belezas e feiuras, tão presentes em nossa condição humana.”
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