Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
@psicanaliseativainpc
Tem mensagem que machuca antes mesmo de a gente entender por quê. Às vezes é uma frase curta, um “ok” seco, um emoji jogado no fim da conversa. Nada ali, literalmente, diz que a pessoa está com raiva, cansada ou decepcionada. Mas alguma coisa atravessa a tela e acerta direto no peito. E, de repente, não é mais sobre o que o outro escreveu, é sobre tudo o que eu imaginei nas entrelinhas.
Em torno do Dia Mundial do Emoji, eu fico pensando no quanto a nossa comunicação virou um campo minado de subentendidos. Uma carinha, um coração de outra cor, um “rs” no lugar do “haha”, e lá vou eu, leitor e roteirista da minha própria novela, preencher os vazios com medos, inseguranças e histórias antigas que não têm nada a ver com o momento.
Lembro de uma cena simples. Uma amiga escreveu para o companheiro: “Cheguei bem ❤️”. Ele respondeu, alguns minutos depois: “Blz 👍”. Só isso. Ela me contou que, quando leu, sentiu como se tivesse levado um gelo. “Como assim ‘blz’? Sem um ‘que bom’, sem um ‘tava preocupado’, sem nada?”, ela dizia. Em poucos segundos, aquele “blz 👍” virou, na cabeça dela, sinal de desinteresse, frieza, quase um prenúncio de fim. Eles não estavam discutindo, não havia briga. Havia um polegar para cima e um coração ferido pelo caminho.
Dias depois, conversando com ele, descobri que o “blz 👍” veio enquanto ele segurava o celular com uma mão e as sacolas de mercado com a outra. Era o jeito corrido de dizer: “Que bom, amor, ainda bem que chegou bem, tô no meio da rua, já te ligo”. Mas ninguém contou isso ao coração dela naquele minuto.
Talvez você já tenha passado por algo parecido. Um “visto e não respondido” que virou rejeição. Um emoji de risada que pareceu deboche. Um áudio acelerado em 2x que deu a sensação de que a pessoa não tem tempo para te ouvir “no ritmo certo”. E, no meio desse turbilhão, a gente se esquece de perguntar: o que de fato aconteceu… e o que eu estou acrescentando à história?
Porque tem uma parte da dor que vem da mensagem. Mas tem outra parte que vem do que eu projeto nela.
Estamos vivendo uma época de comunicação apressada. Digitamos enquanto andamos, respondemos no semáforo, reagimos com um ícone porque “não dá tempo” de escrever. E aí, o que poderia ser só um gesto rápido vira uma pequena arma de mal-entendidos. Não porque os emojis sejam vilões, mas porque nossa pressa não combina com o cuidado que a intimidade pede.
Eu não quero demonizar o “ok” nem o polegarzinho amarelo. Eles podem ser práticos, carinhosos até, em certos contextos. O problema é quando eu começo a medir o meu valor pela quantidade de corações, pelo tamanho da resposta, pela escolha exata de um símbolo. Quando cada mensagem vira teste secreto de amor, amizade ou respeito.
É aqui que, para mim, entra a tal da autonomia afetiva, não como conceito distante, mas como exercício diário, quase artesanal. Autonomia afetiva não é fingir que nada nos toca. É justamente o contrário: é admitir que eu sinto, que eu me magoo, que eu interpreto, mas que posso respirar antes de transformar qualquer sinal em sentença definitiva.
É poder dizer para mim mesmo: “Eu não sei o que essa pessoa quis dizer com esse ‘ok’. Eu posso estar certo, mas também posso estar lendo com as lentes das minhas feridas. Antes de sofrer sozinho, talvez eu pergunte. Talvez eu espere. Talvez eu não entregue todo o poder da minha paz a uma notificação.”
Numa outra cena, um paciente me contou que, depois de um dia péssimo, escreveu para um amigo: “Cara, tô mal”. O amigo respondeu só com um “😢”. Ele se irritou na hora. Pensou: “Se fosse comigo, eu ligaria”. O “😢” virou símbolo de descaso. No encontro seguinte, dias depois, o amigo disse: “Eu vi tua mensagem no trabalho, fiquei sem chão, não podia falar ali. Eu mandei o emoji como quem diz ‘eu sinto contigo’, e depois, na correria, errei em não retomar”. Havia ali uma falha, claro. Mas havia também um sentimento verdadeiro que não cabia naquele ícone triste.
Eu olho para essas histórias e percebo o quanto a nossa leitura rápida pode ser tão ou mais ferina que as palavras. A gente se fere pelo subentendido, mas, muitas vezes, é o nosso medo quem escreve o subentendido.
Não estou dizendo que precisamos aceitar tudo, nem fazer de conta que mensagens frias não doem. Elas doem. E também é importante reconhecer quando alguém de fato se comunica com desdém, ironia ou pouca consideração. Mas entre o que a pessoa manda e o que eu sinto, existe um espaço. E é nesse espaço que mora a possibilidade de cuidado comigo.
Talvez a virada esteja aí: em vez de perguntar apenas “o que ele quis dizer com isso?”, começar a perguntar “por que isso mexeu tanto comigo?”. O que esse “ok” acordou em mim? Uma velha sensação de não ser visto? A memória de um abandono? A insegurança de não me sentir suficiente?
Quando eu começo a investigar esse lugar, algo se desloca. A mensagem do outro continua sendo dele. A minha dor, não. Ela é minha. E, a partir daí, eu posso escolher como cuidar dela, em vez de apenas reagir ao que aparece na tela.
No meio desse mundo de carinhas amarelas, corações coloridos e frases apressadas, talvez o gesto mais radical seja desacelerar por dentro. Antes de devolver com agressividade, antes de sumir em silêncio, antes de construir uma história inteira sobre o que a pessoa “realmente quis dizer”, eu posso fazer um pequeno pacto comigo: não deixar que um emoji decida o tamanho da minha ferida.
No fim, talvez o que mais importe não seja o ícone que aparece ao lado da mensagem, mas a forma como eu apareço para mim quando leio o que chega. Porque quando eu me pertenço um pouco mais, nenhuma mensagem, por mais torta que seja, tem o poder absoluto de dizer quem eu sou ou quanto eu valho. E essa é uma ideia bonita para guardar: nem toda mensagem que fere está falando de mim; às vezes, ela só acerta o lugar onde eu ainda estou aprendendo a me cuidar.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



