Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Provavelmente você já ouviu essa frase muitas vezes, pois ela costuma aparecer em discussões entre casais, conflitos familiares e até nas redes sociais, quase sempre como um conselho para que alguém simplesmente pare de discutir. Mas, sinceramente, nunca gostei da forma como essa frase costuma ser utilizada.
Isso porque ela passa a ideia de que buscar a felicidade exige abrir mão da verdade. E não é disso que se trata. O verdadeiro dilema não é escolher entre ser feliz ou ter razão. É escolher entre viver segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da conveniência. Essa diferença muda completamente a maneira como construímos nossos relacionamentos.
A ética da conveniência é simples. Ela pergunta: “O que é melhor para mim neste momento?” É ela que nos leva a justificar atitudes porque estávamos cansados, magoados ou nervosos e, muito provavelmente temos dificuldades de expressar nossos sentimentos, pensamentos e aspirações.
É ela que faz alguém dizer: “Traí porque meu casamento já não estava bom.” “Gritei porque você me provocou.” “Menti para não te magoar, pois era mais fácil do que enfrentar a conversa.” Perceba que, na ética da conveniência, sempre existe uma boa justificativa. São as circunstâncias que passam a determinar os princípios.
O certo deixa de ser aquilo que preserva a dignidade da relação e passa a ser aquilo que resolve o problema imediato. É a ética guiada pelo conforto. Pela autoproteção. Pelo interesse pessoal. E, curiosamente, quase sempre produz sofrimento no longo prazo.
Já a ética da responsabilidade faz exatamente a pergunta oposta. Ela pergunta: “Quais serão as consequências das minhas escolhas?” Essa perspectiva muda tudo. Antes de responder impulsivamente, ela considera o impacto da resposta. Antes de esconder a verdade, pensa na confiança que poderá ser quebrada. Antes de agir, considera não apenas o direito de escolher, mas também o dever de responder pelas consequências da escolha.
A responsabilidade que não elimina a liberdade. Pelo contrário, ela dá direção à autonomia. Quem ama continua “livre”. Mas entende que toda liberdade carrega uma consequência. Aqui vale lembrar que nosso ego sempre vai querer vencer de alguma forma. O amor é diferente, pois ele quer construir.
Grande parte das discussões dentro de um relacionamento não termina quando alguém encontra a verdade. Termina quando alguém vence. E vencer uma discussão nem sempre significa fortalecer uma relação. Há pessoas que conseguem provar, com absoluta lógica, que estavam certas. Mas, ao final da conversa, perderam algo muito maior: a confiança, o respeito, a segurança emocional e a disposição do outro para continuar dialogando.
Ter razão pode alimentar o ego. Assumir responsabilidade fortalece o vínculo. E lembrando que responsabilidade não significa aceitar tudo. É importante fazer essa distinção. A ética da responsabilidade não convida ninguém a suportar violência, abuso, manipulação ou desrespeito. Porque responsabilidade não é submissão.
Também não significa carregar culpas que pertencem ao outro. Ela significa reconhecer aquilo que depende de nós. Eu não escolho as atitudes do outro. Mas escolho a forma como respondo a elas. Não controlo o comportamento de quem amo. Mas sou inteiramente responsável pela pessoa que decido ser dentro da relação.
Então… ser feliz ou ter razão?
Talvez essa seja a pergunta errada. A pergunta que realmente transforma seja outra: “A minha necessidade de vencer esta discussão está construindo ou destruindo a relação que eu desejo viver?”
É aqui que nasce a ética da responsabilidade. Ela nos lembra que maturidade afetiva não é fazer sempre o que sentimos vontade. É agir de forma coerente com os valores que desejamos ver florescer na relação. Porque relações duradouras não sobrevivem graças às pessoas que sempre têm razão.
Elas sobrevivem graças às pessoas que assumem a responsabilidade pelas próprias escolhas, pelas próprias palavras e pelo impacto que causam na vida de quem amam. No fim das contas, a felicidade não nasce quando alguém vence. Ela nasce quando duas pessoas decidem que cuidar da relação é mais importante do que alimentar o próprio ego.
Sou a Bia Rossatti, terapeuta familiar, de casal e criadora do método A Rota da Cura®. A “Ética da Responsabilidade” no meu método segue esta ideia de que a cura começa quando deixamos de organizar a vida pela conveniência — pelo impulso, pelo medo ou pelo ego — e passamos a orientar nossas escolhas pela responsabilidade sobre as consequências.
E esse é um conceito muito próximo da reflexão do filósofo Max Weber, que distinguiu a ética da convicção (agir apenas de acordo com aquilo em que se acredita) da ética da responsabilidade (agir considerando também os efeitos concretos das próprias ações).
No contexto das relações afetivas, essa distinção é atualizada, pois muitos de nós não vivemos nem pela responsabilidade, nem pela convicção, mas pela conveniência — fazemos o que é mais fácil, mais confortável ou mais vantajoso naquele momento, ainda que isso comprometa a confiança e o vínculo.
Vamos pensar sobre esse assunto com muito cuidado ok?



