Por Dra Simone Baptista
Nesta semana, o nome de um dos maiores escritórios de advocacia empresarial da América Latina tomou as manchetes — não pelo número de filiais ou pelo volume de processos, mas por uma operação da Polícia Federal e do CIRA/SP que apura um suposto esquema bilionário de créditos fraudulentos de ICMS, com buscas e apreensões em endereços ligados ao fundador do escritório e à esposa, também sócia da banca. Ele nega qualquer irregularidade e afirma ter atuado dentro dos limites da advocacia. O desfecho caberá à Justiça. Mas o episódio, ainda em apuração, já deixa uma pergunta no ar para todos nós: de que adianta abrir portas se, para isso, corroemos o alicerce que deveria sustentá-las?
A porta errada
Durante anos, esse nome foi sinônimo de expansão. Escritório em todas as capitais, milhares de processos ativos, uma presença digital construída em torno de luxo e ostentação. Para muitos colegas mais jovens, virou referência de “sucesso” — a prova de que a advocacia podia, sim, ser um negócio de escala.
O problema é que existe mais de uma porta com a placa “sucesso”. Uma leva ao crescimento sustentável, construído sobre reputação, técnica e confiança. A outra, mais rápida e mais sedutora, promete o mesmo destino sem pedir o mesmo preço — até que pede, tudo de uma vez.
Advocacia exponencial nunca foi sobre atalho. É sobre alavancagem: usar processos, tecnologia, posicionamento e visão de negócio para multiplicar o que já é sólido. Quando a base é frágil — ou pior, quando a base é fraude —, a multiplicação também se acelera. Só que na direção contrária.
O que fica para quem constrói de verdade
Não escrevo isso para julgar um processo que ainda está em curso. Escrevo para os advogados e advogadas que me acompanham e que, todos os dias, decidem entre o caminho mais rápido e o caminho certo. Três reflexões que trago desta semana:
1. Ética não é o oposto de ambição — é o que garante que ela dure. Uma banca pode crescer rápido sobre areia. Não fica em pé na primeira tempestade. Crescer com ética é crescer mais devagar no início, mas sem prazo de validade.
2. Reputação é o único ativo que não se recompra. Clientes, prêmios, seguidores — tudo isso se reconstrói. Uma reputação manchada por má-fé comprovada, não. É a chave que, uma vez perdida, não abre mais porta nenhuma.
3. Identidade profissional não se terceiriza para a imagem que você projeta. Quem constrói marca pessoal sabe: é fácil confundir a narrativa que se conta sobre si com o que, de fato, se pratica no escritório. A pergunta que fica é simples — o que sustenta minha atuação quando ninguém está filmando?
Ser exponencial, com os pés no chão
Prefiro, sempre, o crescimento que não precisa se esconder de auditoria nenhuma. O consultório previdenciário que atende com técnica e verdade, o mentorado que aprende a precificar seu valor sem inflar promessa, a advogada que multiplica resultado porque domina o processo — não porque atalha a lei.
Ser exponencial é abrir portas. Mas só vale a pena abrir as que, quando reabertas daqui a dez anos, ainda têm nosso nome do lado de dentro com orgulho.
Dra. Simone Baptista é advogada especialista em Direito Previdenciário, fundadora da AposentaSP e mentora do programa Advocacia Exponencial.



