Por Ramon Henrique
Mentir que é bi pra família é quase um rito de passagem pra muita gente gay, principalmente quando o armário tá trancado por dentro e por fora.
É o meio termo. É o “não sou 100% gay, calma” que a gente solta pra testar as águas, pra ver se a casa não cai, pra ver se a mãe chora, se o pai some, se os tios começam com piadinha no almoço de domingo.
Dizer “sou bi” parece menos assustador. Parece que ainda tem uma porta de saída, uma possibilidade de “ficar com mulher também e dar tudo certo”. E às vezes a gente nem mente por maldade.
Mente por medo. Medo de perder o apoio, medo de perder o quarto, medo de perder o sobrenome na mesa de Natal.
Eu lembro de quantas vezes vi amigo ensaiar isso no espelho. “Mãe, eu gosto de menino e de menina”. E no fundo sabia que só gostava de menino. Mas falar “sou gay” parecia uma bomba.
Falar “sou bi” parecia um desarmador. É a versão light da verdade, com 50% menos julgamento. Só que o problema é que essa mentira te prende também.
Porque aí começam as perguntas: “E aí, tá ficando com alguma menina?” “Quando vai namorar uma mulher?” E você fica inventando crush de menina que nunca existiu, nome de colega que você nem lembra, história pra cobrir buraco.
O mais louco é que muita gente faz isso e depois descobre que nem precisava. Família às vezes abraça mais do que a gente imagina, e às vezes não abraça mesmo.
E aí a mentira vira escudo, vira tempo. Tempo pra você se fortalecer, pra juntar dinheiro, pra sair de casa, pra ter pra onde ir se a coisa ficar feia.
Não julgo ninguém por mentir, julgo o mundo que faz a gente sentir que precisa mentir pra ser amado.
Sair do armário não tem manual, tem gente que grita, tem gente que solta no grupo da família, tem gente que nunca fala nada e só aparece com o namorado um dia, e tem gente que passa pelo “sou bi” primeiro. É um degrau.
Um teste, e tá tudo bem, a verdade não perde o valor porque demorou pra sair inteira, o que importa é que uma hora ela sai, e quando sai, ela te devolve.
Devolve o riso leve, devolve o corpo que não precisa se esconder na foto, devolve o direito de amar sem nota de rodapé.
Então se você já mentiu que era bi, respira. Você não é falso, você só estava sobrevivendo do jeito que deu, e se um dia você quiser contar a versão completa, conta.
Se não quiser, também tá tudo bem. Ser gay não é obrigação de fazer pronunciamento. É só viver. Sem talco na cara, sem medo no peito, sem roteiro pronto.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



