Microexpressões, memória e comportamento podem revelar muito mas transformar um gesto em prova de mentira é um dos atalhos mais perigosos da análise humana.
Por Dayse Batista | @dayseperita
Ela recebe uma pergunta.
Por uma fração de segundo, aperta os lábios. Desvia os olhos. Respira um pouco mais fundo. Só depois responde:
— Não.
Para quem assiste ao vídeo, a conclusão parece pronta:
“Está mentindo.”
E é justamente aí que começa o problema.
Vivemos a era em que poucos segundos de um depoimento são suficientes para que milhares de pessoas assumam o papel de investigadores, psicólogos, peritos e julgadores. Um olhar para o lado vira culpa. Braços cruzados viram resistência. Uma pausa vira invenção. Um sorriso fora de hora vira frieza.
Mas o comportamento humano não funciona como legenda automática. Talvez uma das coisas mais importantes que a ciência forense possa ensinar seja justamente esta: nem todo comportamento estranho revela uma mentira e nem toda mentira produz um comportamento estranho.
O ROSTO REALMENTE FALA?
Sim. Nosso corpo reage constantemente ao ambiente, às perguntas, às lembranças e às emoções. Existem alterações musculares extremamente rápidas, algumas praticamente imperceptíveis para um observador comum, é nesse universo que entram as chamadas microexpressões faciais.
Um dos trabalhos mais conhecidos nessa área está relacionado a Paul Ekman e ao Facial Action Coding System (FACS), sistema criado para descrever movimentos musculares da face por meio das chamadas Unidades de Ação. Mas existe uma diferença fundamental: o FACS descreve movimentos faciais. Ele não lê pensamentos.
Imagine que determinada expressão seja compatível com medo. A análise não pode terminar aí. Medo de quê? Da pergunta? Da lembrança? De não ser acreditado? Da exposição? Das consequências? Ou de estar escondendo alguma coisa?
É exatamente nesse ponto que observação e interpretação precisam ser separadas.
Observar: “houve determinada alteração facial.”
Interpretar: “essa pessoa está mentindo.”
Entre uma frase e outra existe um enorme caminho científico.
UMA REGRA SIMPLES: COMPORTAMENTO NÃO É PROVA ISOLADA
Na perícia aprendemos que um vestígio raramente deve ser interpretado sozinho. Uma marca em um veículo precisa conversar com a dinâmica do acidente. Uma lesão precisa ser confrontada com o mecanismo que supostamente a produziu. Uma mancha precisa ser analisada em relação ao ambiente e à narrativa apresentada.
Com o comportamento humano deveria acontecer exatamente a mesma coisa. Quando observo um depoimento, não interessa apenas saber o que a pessoa fez. Precisamos perguntar: quando aconteceu? Qual pergunta veio imediatamente antes? Aquele comportamento já aparecia anteriormente? Houve uma mudança repentina no padrão daquela pessoa? A fala é compatível com os demais elementos disponíveis?
Aqui está um conceito importante: linha de base comportamental. Cada pessoa possui uma maneira própria de falar, gesticular, fazer pausas, movimentar os olhos e reagir a situações de tensão. Comparar alguém apenas com uma suposta “regra universal da mentira” é perigoso, em muitos casos, é mais útil observar mudanças no padrão daquela própria pessoa diante de determinados assuntos.
Ainda assim, mudança não significa mentira. Significa apenas: há algo aqui que merece atenção.
E EXISTE OUTRO PERSONAGEM NESSA HISTÓRIA: A MEMÓRIA
Gostamos de imaginar a memória como uma câmera: o fato aconteceu, o cérebro gravou e, meses depois, basta apertar “play”. Não funciona assim. A memória humana é reconstruída. Tempo, emoções, novas informações, conversas posteriores e perguntas sugestivas podem interferir na forma como determinado acontecimento é recordado.
Isso nos ensina uma diferença importantíssima: informação incorreta não significa necessariamente mentira. Uma pessoa pode fornecer um relato inexato e acreditar sinceramente no que está dizendo. Na mentira deliberada existe intenção de enganar; no erro de memória, essa intenção pode não existir.
Por isso, encontrar uma contradição em um depoimento não deveria produzir automaticamente a frase “ele mentiu”. A pergunta técnica é outra: por que essa informação mudou?
APRENDA A OBSERVAR SEM CAIR NA ARMADILHA
Existe um exercício simples que utilizo para explicar essa diferença. Imagine uma pessoa respondendo a uma pergunta e desviando imediatamente o olhar. Em vez de concluir “desviou o olhar, está mentindo”, separe a análise em três etapas:
1. O que eu realmente observei? A pessoa desviou o olhar após determinada pergunta.
2. O que isso pode significar? Ansiedade, tentativa de recordar, desconforto, vergonha, medo, hábito pessoal, entre outras possibilidades.
3. Existe outro elemento que sustente alguma dessas hipóteses? Depoimentos, documentos, vestígios, imagens, cronologia dos fatos e demais evidências.
Esse raciocínio se faz importante e deve ser feito após perguntas livres abertas que a pessoa responde naturalmente tipo pergunte sobre o tempo no dia aquela famosa frase “será que vai chover”? veja primeiro como ela é no natural sem pressão, depois o que muda quando confrontada?
O PROBLEMA DOS “DETECTORES HUMANOS DE MENTIRA”
Nas redes sociais, porém, frequentemente acontece o contrário. Vídeos são pausados. Setas aparecem sobre o rosto. “Olhou para cima.” “Coçou o nariz.” “Demorou para responder.” Conclusão: mentiu. Parece científico. Nem sempre é.
Existe uma distância enorme entre analisar tecnicamente um comportamento e procurar gestos que confirmem aquilo que já se decidiu acreditar. Isso é um exemplo de viés de confirmação: se acreditamos previamente que alguém é culpado, podemos começar a interpretar tudo nessa direção. Se chora, está manipulando. Se não chora, é frio. Se fala demais, está tentando convencer. Se fala pouco, está escondendo.
Quando qualquer comportamento confirma nossa hipótese, já não estamos investigando, estamos apenas procurando justificativas para uma conclusão previamente escolhida. E a perícia não pode funcionar assim.
A CIÊNCIA COMEÇA ONDE TERMINA O ACHISMO
Existe uma regra que considero indispensável na minha atuação pericial: hipótese não é conclusão. Primeiro observamos. Depois registramos. Comparamos. Formulamos possibilidades. Buscamos elementos externos. E somente então avaliamos o que aquele conjunto permite sustentar tecnicamente.
Uma microexpressão pode ser relevante. Uma mudança brusca de comportamento pode chamar atenção. Uma contradição pode exigir aprofundamento. Mas existe uma enorme diferença entre dizer “ele demonstrou medo, portanto está mentindo” e afirmar “houve uma alteração comportamental diante desse estímulo; precisamos investigar o que pode tê-la provocado e verificar se existem outros elementos convergentes”.
A primeira frase julga. A segunda investiga. E essa diferença representa, para mim, a essência da perícia.
Observe o comportamento. Formule hipóteses. Procure convergência. Só depois conclua.
Porque, no final, o rosto pode até revelar uma emoção. Quem precisa provar o fato continua sendo a evidência.



