Por Jéssica Monteiro Lima
@psicologa_jessicamonteirolima
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No último fim de semana participei de um evento de atualização profissional de psicologia perinatal e uma das palestras me inspirou para a matéria de hoje. Estamos vivendo mais um período eleitoral no Brasil. E, independentemente de escolhas políticas, existe uma conversa que precisa continuar acontecendo: que cuidado queremos oferecer às mulheres, aos bebês e às famílias?
Quando falamos em saúde perinatal, é importante reconhecer que já tivemos avanços. Hoje, existem leis e políticas que reconhecem direitos relacionados à gestação, ao parto, ao puerpério e à saúde mental. Um exemplo importante é a Lei nº 14.721/2023, que passou a prever assistência psicológica à gestante, à parturiente e à puérpera, além de ações de educação, conscientização e esclarecimento sobre saúde mental durante a gravidez e o puerpério.
Também tivemos um avanço significativo com a Lei nº 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, reconhecendo que uma perda gestacional, fetal ou neonatal não atinge apenas a mulher, mas também suas parcerias e familiares. São conquistas importantes, mas uma lei, sozinha, não transforma uma realidade.
Entre o direito escrito e o cuidado que chega até uma pessoa existe um caminho que precisa ser construído, precisamos:
de profissionais cada vez mais preparados para reconhecer as necessidades emocionais desse período;
falar sobre saúde mental perinatal na formação dos profissionais de saúde.
de espaços de psicoeducação durante o pré-natal e o pós-parto.
ensinar que ansiedade, tristeza, medo, ambivalência e sobrecarga merecem ser escutados, sem transformar toda emoção em doença e sem esperar que o sofrimento se torne insuportável para oferecer ajuda.
também preparar melhor a rede de apoio.
Porque uma mulher não vive a gestação, o parto e o puerpério isoladamente. Ela está inserida em uma família, em uma comunidade e, muitas vezes, em um ambiente de trabalho que também pode favorecer ou dificultar esse processo.
O próprio Ministério da Saúde reconhece que o pré-natal deve considerar os aspectos psicossociais da gestação e desenvolver ações educativas e preventivas. Isso nos mostra que saúde mental não deveria aparecer apenas quando existe uma crise. Ela precisa estar presente na prevenção, na informação e na qualidade do cuidado.
E existe outro ponto que considero essencial: qualificar quem cuida. Não basta falar sobre a importância da saúde mental perinatal. Precisamos formar profissionais capazes de escutar sem julgamento, reconhecer sinais de sofrimento, compreender as particularidades desse período e saber quando encaminhar para o cuidado especializado.
Esse preparo começa na formação profissional e continua ao longo da carreira, também precisamos avançar na empatia:
uma gestante pode estar feliz e assustada;
uma mãe pode amar profundamente seu bebê e estar exausta;
um pai pode estar vivendo a chegada do filho com alegria e, ao mesmo tempo, preocupado com a responsabilidade de prover e cuidar.
uma família pode estar celebrando uma gestação e carregando medos que ninguém conhece.
Sentimentos diferentes podem existir ao mesmo tempo, cuidar bem significa conseguir enxergar essa complexidade. Por isso, quando pensamos no futuro da saúde perinatal no Brasil, a pergunta não deveria ser apenas quantas leis temos, mas também:
Se estamos conseguindo transformar esses direitos em cuidado acessível, humanizado e qualificado?
Essa é uma construção que envolve políticas públicas, serviços de saúde, profissionais, empresas, famílias e toda a sociedade. E não precisa ser uma conversa partidária para ser uma conversa necessária, porque falar de saúde mental perinatal é falar de prevenção, dignidade, cuidado e desenvolvimento humano. É reconhecer que proteger a saúde de um bebê também passa por cuidar de quem está ao seu redor. E que cuidar de uma mulher durante a gestação, o parto e o puerpério não é um privilégio. É parte de uma sociedade que entende que saúde também é cuidar de quem cuida.
Ainda temos muito a avançar.
Mas reconhecer o que já foi conquistado também é importante. Porque mudanças importantes começam quando deixamos de considerar determinadas necessidades como invisíveis e passamos a tratá-las como aquilo que realmente são: questões de cuidado e de saúde.
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Sobre a autora
Jéssica Samanta Monteiro Miranda Lima é Psicóloga Perinatal, com atuação voltada à saúde mental da mulher. Acompanha mulheres em diferentes fases da vida, desde a jornada da fertilidade até os desafios emocionais da gestação, parto, pós-parto, e busca por uma maternidade mais leve oferecendo escuta sensível e embasamento técnico e científico.
Formação acadêmica
Bacharel em Psicologia – Universidade do Grande ABC
MBA em Gestão estratégica do Capital Humano – FMU
Pós-graduação Psicopedagogia – Universidade Metodista
Pós-graduação Aperfeiçoamento em Psicologia Perinatal e da Parentalidade – Instituto MaterOnline



