Por João Fernando Silva
Muita gente ainda acredita na velha história de que o governo imprime dinheiro para pagar as contas, mas a grande verdade é que o governo não imprime dinheiro, ele imprime dívida. E quando o Estado emite títulos e expande o endividamento público para custear a máquina, alguém precisa pagar essa conta. Mais cedo ou mais tarde, esse movimento acelera um fenômeno que ganhou força na pandemia nos Estados Unidos e hoje se aplica perfeitamente ao Brasil, que é a teoria da economia em k.
A economia em k descreve uma recuperação e um crescimento em formatos opostos, simbolizados pelas duas pernas da letra. No braço superior do k estão as pessoas e empresas que possuem ativos, investidores com patrimônio em imóveis, ações, empresas e renda fixa, que se beneficiam da inflação e da concentração de capital, ganhando cada vez mais poder de compra. No braço inferior está o trabalhador sem capacidade de poupança, que vê o seu poder aquisitivo ser corroído diariamente pelo custo de vida alto e pela inflação. Nessa dinâmica, a classe média, que ficava no centro, está praticamente desaparecendo, criando uma polarização brutal na sociedade.
Mesmo quando o governo realiza medidas de redistribuição de renda, o capital da base não se acumula. A população de menor renda gasta o recurso imediatamente em itens básicos de consumo (roupas, celulares e serviços), e esse dinheiro sai rapidamente da base e retorna para a mão das grandes empresas e detentores de capital. Esse mesmo fenômeno acontece dentro do mercado corporativo e entre os profissionais de vendas. De um lado estão os representantes e negócios estáticos, sem desenvolvimento, dependentes de indicação passiva ou do fluxo de loja física. Do outro lado estão as estruturas preparadas, que acumulam capital intelectual, tecnologia, autoridade e inteligência de dados, expandindo continuamente e concentrando as melhores oportunidades e marcas.
No nosso negócio, enfrentar esse cenário exige uma mudança profunda de atitude. Quando nos deparamos com problemas com clientes ou na gestão, a tendência natural é agir no impulso ou no modo de paralisia, fazendo coisas paliativas e empurrando a sujeira para debaixo do tapete.
Hoje, a atenção do cliente é o ativo mais valioso do mercado. Antigamente, as grandes marcas tinham o cliente garantido apenas pelo peso do nome, mas isso acabou. Marca isolada não basta mais; você precisa ter entrega, produto, serviço e capacidade real de resolver a dor do cliente, ou seja, mais ativos para oferecer. Enquanto milhares de empresas pedem recuperação judicial no país, existe uma parcela menor de negócios faturando mais do que nunca, porque entendeu a urgência da adaptação. Lojistas tradicionais que abrem a loja às nove da manhã, tomam café e esperam o cliente entrar estão perdendo espaço para quem atua com presença digital e vendas ativas de forma ininterrupta.
O acúmulo de conhecimento, autoridade e presença gera um ciclo contínuo de resultados. Para acompanhar esse ritmo, o profissional precisa ser completo: entender de comportamento humano, usar a tecnologia a seu favor e investir em relacionamento contínuo. Criar comunidades de conteúdo, escutar o cliente com atenção e resgatar contatos inativos são ações simples que geram um capital relacional gigantesco. A economia em k não vai esperar ninguém se adaptar, e cabe a cada um decidir em qual perna dessa letra quer construir o seu futuro.


