Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Vivemos dias tão conturbados nestes últimos dias, momentos em que as divergências políticas ultrapassaram as discussões sobre projetos de país e passaram a ocupar espaços cada vez mais íntimos da nossa vida. Famílias se dividindo, amizades se desfazendo e casais descobrindo que suas diferenças ideológicas transformaram o convivio em verdadeiros campos de batalha. Mas será que o problema está apenas naquilo em que acreditamos ou também na maneira como lidamos com quem acredita em algo diferente de nós?
Essa é uma pergunta importante em um período de intensa polarização política no Brasil. E, embora o debate público mereça nossa atenção, existe uma dimensão desse fenômeno que precisa ser examinada com mais cuidado: o impacto da polarização sobre os nossos relacionamentos.
Quando a divergência se transforma em inimizade
Discordar faz parte da experiência humana. Somos formados por histórias, valores, experiências e interpretações diferentes da realidade. É natural que nem sempre cheguemos às mesmas conclusões, inclusive quando compartilhamos a mesma casa, a mesma família ou décadas de vida em comum. O problema começa quando deixamos de discutir ideias e passamos a julgar o valor de quem pensa diferente.
Em vez de perguntar por que o outro chegou àquela conclusão, atribuímos a ele ignorância, má-fé ou falta de caráter, falta de inteligência. A conversa deixa de ser uma oportunidade de compreensão e se transforma em uma disputa na qual cada um precisa provar que está certo. Nesse cenário, ouvir se torna difícil. Afinal, quando acreditamos que o outro representa uma ameaça aos nossos valores ou à nossa identidade, qualquer argumento contrário pode ser recebido como uma agressão.
E, quando isso acontece, já não estamos apenas discutindo política. Estamos defendendo nossa própria visão de mundo.
O que a polarização pode estar revelando sobre nós?
Pesquisas sobre polarização política e relações familiares ajudam a compreender que as divergências ideológicas podem ultrapassar o campo das opiniões e afetar os vínculos pessoais. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista Research & Politics, de autoria de Malu A. C. Gatto, João Gabriel Leal e Débora Thomé, investigou conflitos familiares relacionados às eleições brasileiras de 2022. Os resultados mostram que, para uma parcela dos entrevistados, as divergências eleitorais tiveram consequências concretas nas relações familiares.
O estudo não significa que toda divergência política provoque rompimentos, mas nos ajuda a reconhecer que o conflito político pode deixar marcas que vão além das urnas. A questão, portanto, não é exigir que todos pensem da mesma maneira. É compreender por que algumas diferenças conseguem ser negociadas, enquanto outras passam a ameaçar relações que levaram anos para ser construídas.
E quando essa disputa chega ao casamento?
Imagine um casal que compartilhou décadas de vida, criou filhos, enfrentou dificuldades financeiras e construiu um patrimônio. Durante muito tempo, as diferenças foram administradas, os conflitos encontraram algum espaço de negociação e a vida seguiu. Em determinado momento, porém, as divergências políticas passam a ocupar todas as conversas.
Um considera o outro incapaz de compreender a realidade. O outro responde com acusações. As discussões se repetem, o ressentimento aumenta e o silêncio começa a substituir o diálogo.Aos poucos, o casal deixa de enxergar a pessoa com quem construiu uma história e passa a enxergar apenas alguém que representa uma posição política rejeitada.
É importante reconhecer que nem toda crise conjugal pode ser explicada pela política. Muitas vezes, as divergências funcionam como um amplificador de problemas anteriores: ressentimentos acumulados, dificuldades de comunicação, perda de intimidade e conflitos de valores que nunca foram adequadamente discutidos.
A política pode ser o assunto aparente. A dificuldade de lidar com as diferenças pode ser uma questão muito mais profunda. Como Terapeuta Sistêmica, considero fundamental olhar para o contexto das relações, compreender os padrões de interação e observar como as atitudes de cada pessoa influenciam a resposta da outra.
Isso não significa distribuir culpas igualmente nem relativizar comportamentos abusivos. Significa investigar o que está acontecendo na relação para que as decisões sejam tomadas com maior clareza.
Ter razão é suficiente para construir uma vida a dois?
Existe uma diferença importante entre defender convicções e transformar essas convicções em instrumentos de superioridade moral. Podemos ter valores firmes, questionar decisões políticas, criticar governos e discordar profundamente de determinadas ideias. Nada disso exige que desumanizemos quem pensa de outra maneira.
Também não precisamos concordar com tudo para preservar um vínculo. Em algumas situações, inclusive, existem diferenças fundamentais que precisam ser reconhecidas com honestidade.O que precisamos aprender é a distinguir o respeito à pessoa da concordância com suas ideias.
Respeitar não é aprovar. Escutar não é se submeter. Dialogar não é abandonar os próprios princípios. É reconhecer que a realidade pode ser mais complexa do que nossa interpretação individual e que a disposição para examinar nossas certezas também faz parte do amadurecimento.
Uma pergunta pode nos ajudar nesse exercício: estou tentando compreender o que está acontecendo ou apenas procurando argumentos para provar que tenho razão? Essa reflexão não se aplica somente à política. Ela também vale para discussões sobre dinheiro, criação dos filhos, divisão das responsabilidades, sexualidade, projetos de vida e tantas outras questões que atravessam um casamento.
Antes de desistir, precisamos compreender
No meu trabalho com casais, especialmente aqueles que viveram muitos anos juntos e atravessam crises profundas, procuro ajudar as pessoas a compreenderem o que está acontecendo antes de tomarem decisões definitivas. Essa é também a proposta do meu projeto Antes do Fim®: criar um espaço de clareza para que o casal possa examinar sua realidade, reconhecer os conflitos e avaliar, com responsabilidade, se existe um caminho possível de reconstrução.
Isso não significa defender a permanência em qualquer relacionamento. Existem situações em que a separação é necessária, sobretudo quando há violência, abuso ou ausência de condições seguras para a convivência. Mas também existem casais que chegam ao limite sem compreender inteiramente como foram construindo a distância que hoje os separa.
Nesses casos, antes de concluir que tudo acabou, pode ser importante investigar se ainda existe disposição mútua para escutar, rever comportamentos e construir novas formas de convivência. A mesma reflexão vale para os conflitos políticos dentro da família: antes de transformar uma divergência em motivo de rompimento, precisamos compreender o que está em jogo, quais limites são necessários e se ainda existe espaço para uma relação respeitosa.
A mudança que esperamos do mundo começa nas nossas relações
É tentador acreditar que os problemas estão sempre do lado de fora: nos políticos, nas instituições, nas pessoas que pensam diferente de nós. Evidentemente, existem questões sociais e políticas que exigem crítica, posicionamento e ação concreta. Não devemos confundir reflexão com omissão.
Entretanto, também precisamos olhar para a nossa participação nas relações que construímos. Como reagimos quando somos contrariados? Conseguimos admitir que podemos estar equivocados em alguma coisa? Somos capazes de ouvir sem preparar imediatamente uma resposta? Reconhecemos a diferença entre questionar uma ideia e atacar uma pessoa?
Essas perguntas não resolvem todos os conflitos, mas podem nos ajudar a interromper padrões que alimentam o afastamento.Uma sociedade mais consciente não é aquela em que todos concordam. É aquela em que as pessoas conseguem discutir suas diferenças sem perder de vista a responsabilidade pelas próprias atitudes. Talvez não consigamos controlar o rumo de todas as discussões políticas do país. Mas podemos começar examinando a maneira como tratamos as pessoas com quem convivemos.
Porque, no fim, uma pergunta permanece: de que adianta vencer uma discussão se, para isso, destruímos um vínculo que era importante para nós? Ter razão pode nos dar a sensação de vitória. Compreender a realidade, reconhecer nossos limites e agir com responsabilidade exige algo mais difícil: maturidade. E talvez seja justamente essa maturidade que nossos relacionamentos — e nossa convivência social — estejam nos pedindo neste momento.



