Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, o mês termina antes que a gente consiga admitir que também precisa terminar alguma coisa.
O último dia chega, a agenda muda, as contas são organizadas, as mensagens se acumulam. Mas, por dentro, existe uma pergunta que insiste em permanecer: o que eu ainda estou carregando, embora já não faça sentido continuar levando?
Eu penso nisso sempre que vejo alguém atravessar o fim do mês no piloto automático. A pessoa cumpre compromissos, responde “está tudo bem” e segue adiante, mas guarda no corpo o peso de uma relação que se tornou desgastante, de um hábito que rouba energia ou de uma história sobre si mesma que já não corresponde ao que deseja viver.
Talvez você conheça essa sensação.
Talvez tenha passado mais um mês esperando uma mudança que não aconteceu. Esperando aquela mensagem, aquele pedido de desculpas, aquela oportunidade de finalmente ser reconhecido. Ou talvez tenha repetido uma promessa feita muitas vezes: “no próximo mês eu começo”, “no próximo mês eu me posiciono”, “no próximo mês eu penso mais em mim”.
Só que um novo ciclo não começa apenas porque o calendário virou. Ele começa quando alguma escolha muda dentro da gente.
Lembro de uma cena simples, mas muito comum: alguém diante do guarda-roupa, separando roupas que já não usa. Algumas estão apertadas, outras carregam lembranças, e há aquelas que permanecem ali apenas porque um dia foram importantes. A pessoa hesita, segura uma peça por alguns segundos e pensa: “Talvez eu volte a usar”.
Nem sempre é sobre a roupa.
Muitas vezes, fazemos isso com relações, expectativas e versões antigas de nós mesmos. Guardamos conversas que terminaram, vínculos que machucam e sonhos que perderam o sentido, como se abrir espaço fosse uma espécie de ingratidão. Como se reconhecer que algo acabou apagasse o valor que aquilo teve um dia.
Mas não apaga.
Encerrar um ciclo não significa negar a história. Significa aceitar que ela cumpriu uma parte do caminho e que continuar insistindo pode ser apenas uma forma silenciosa de abandonar a si mesmo.
Foi uma compreensão importante para mim: escolher a mim mesmo não significa deixar de amar, cuidar ou me importar. Significa não me colocar continuamente em último lugar para manter de pé aquilo que já depende apenas do meu esforço. Significa perceber que a minha presença também precisa ser respeitada por mim.
Autonomia afetiva não é solidão. Não é fechar as portas, desconfiar de todos ou fingir que não precisamos de ninguém. É poder estar com alguém sem desaparecer de si. É amar sem transformar o outro em resposta para todas as faltas. É conseguir dizer “sim” com verdade e “não” sem precisar construir uma longa defesa.
Às vezes, a coragem aparece em gestos discretos: deixar de procurar quem nunca demonstra interesse, interromper uma conversa que sempre termina em culpa, pedir ajuda, descansar sem se sentir improdutivo, ou simplesmente reconhecer que determinada escolha já não combina com a pessoa que estou me tornando.
O fim do mês pode ser esse pequeno espelho. Não para me cobrar resultados, mas para me perguntar com honestidade: o que me aproximou de mim? O que me afastou? Onde eu fui fiel ao que sinto e onde continuei representando um papel apenas para não decepcionar alguém?
Talvez eu não consiga resolver tudo agora. Talvez você também não. Mas posso começar por uma decisão possível: não continuar alimentando aquilo que me diminui.
Então, antes de abrir as portas para o próximo ciclo, eu convido você a olhar para o que precisa ser encerrado. Sem pressa, sem violência contra si mesmo, mas com a firmeza de quem entende que recomeçar também é uma forma de cuidado.
Qual ciclo você está pronto para encerrar neste mês? Às vezes, colocar em palavras é o primeiro movimento para deixar de carregar sozinho aquilo que já pede passagem.
No próximo mês, vou conversar sobre os recomeços que não fazem barulho aqueles que começam por dentro, quando a gente aprende a escutar com mais clareza o que realmente deseja viver.
Porque algumas portas só se abrem quando eu finalmente tenho coragem de fechar aquelas que me mantinham distante de mim.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



