Por Dra Erica Ricci
Os jogos passam, os campeões mudam, mas as lembranças construídas em família podem acompanhar uma criança por toda a vida.
Com a chegada da Copa do Mundo, as ruas ganham cores, as bandeiras reaparecem nas janelas, os grupos de mensagens voltam a discutir escalações e milhões de pessoas compartilham a expectativa de cada partida.
Para muitos adultos, a Copa é um evento esportivo, mas, para muitas crianças, porém, ela é algo muito maior, porque as memórias mais importantes desse período raramente acontecem dentro do campo. Elas acontecem dentro de casa.
Talvez, daqui a alguns anos, uma criança não se lembre de quem marcou determinado gol. Talvez não consiga recordar qual seleção venceu uma partida específica ou sequer quem levantou a taça naquele ano.
Mas é bastante provável que ela se lembre do sofá onde se sentou ao lado da família, da camiseta vestida com orgulho, das comidas preparadas para assistir ao jogo, das brincadeiras, das risadas compartilhadas e da sensação de fazer parte de algo especial.
A infância é construída por experiências emocionais. O que permanece na memória não são apenas os acontecimentos, mas principalmente os sentimentos associados a eles.
Por isso, quando adultos recordam momentos marcantes da própria infância, raramente falam apenas dos fatos. Falam da sensação de pertencimento. Do carinho recebido. Da alegria de estarem juntos. Da segurança de saber que havia alguém ao seu lado.
As lembranças afetivas costumam nascer em situações simples:
– Um almoço de domingo.
– Uma viagem curta.
– Uma brincadeira improvisada.
– Uma conversa antes de dormir.
– Ou uma tarde assistindo a um jogo cercado pelas pessoas que ama.
Em uma sociedade cada vez mais acelerada, muitas famílias sentem a necessidade de criar experiências extraordinárias para que seus filhos tenham boas lembranças. Mas, na prática, o que mais marca uma criança não costuma ser o evento grandioso.
– É a presença.
– É o olhar atento.
– É a sensação de ser incluída.
– É perceber que existe espaço para ela dentro da história daquela família.
E talvez o verdadeiro legado da Copa não esteja apenas nos gols, nas vitórias ou nos títulos, talvez ele esteja nas memórias que estão sendo construídas agora, enquanto pais e filhos compartilham momentos que, aos olhos de um adulto, podem parecer comuns, mas que, aos olhos de uma criança, podem se transformar em recordações para toda a vida.
Os campeões mudam.
As taças passam de mãos.
Os jogos terminam.
Mas a sensação de ter sido amado, acolhido e pertencente permanece muito depois do apito final.
Érika Ricci – Psicóloga Clínica
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