Por Dayse Batista
@dayseperita
Dizem que a curiosidade matou o gato.
Mas, como perita, essa história nunca me convenceu.
Quem encontrou o corpo? Qual foi a causa da morte? Havia vestígios? Alguém examinou a cena? Ou simplesmente decidiram culpar a curiosidade?
Pobre gato! Além de morto, ainda teve sua história encerrada sem uma investigação.
Parece brincadeira, mas quantas vezes fazemos exatamente isso na vida real?
Uma pessoa conta, outra acredita, alguém compartilha e, de repente, uma hipótese se transforma em verdade.
Na perícia forense, esse comportamento pode ter consequências graves.
Um carro destruído não comprova, por si só, excesso de velocidade. Uma assinatura diferente não significa necessariamente falsificação. Uma narrativa convincente não é sinônimo de verdade.
O que parece óbvio também precisa ser investigado.
A curiosidade é o ponto de partida da ciência. Foi ela que levou pesquisadores a questionar explicações antigas, descobrir fenômenos e desenvolver métodos capazes de revelar aquilo que os olhos, sozinhos, não conseguem enxergar.
Mas existe uma diferença fundamental: o curioso desconfia; o perito investiga. O curioso imagina; o perito testa hipóteses. E, quando as evidências são insuficientes, o profissional responsável reconhece os limites da conclusão.
Afinal, a perícia não existe para confirmar histórias. Existe para examinar fatos.
Talvez o maior perigo não seja a curiosidade, mas a certeza de quem nunca fez uma pergunta.
E quanto ao gato?
Continuo aguardando o laudo.
Porque, sem investigação, até a curiosidade pode ser condenada injustamente.



