Por Bia Rossatti – Terapeuta Familiar
@biarossattiterapeuta
Vale lembrar que a “Geração Z” reúne quem nasceu, em geral, entre 1997 e 2012 — a primeira geração que cresceu com internet, redes sociais e smartphone desde a infância ou adolescência. São, hoje, os jovens adultos que estão entrando (ou decidindo não entrar) no mercado de relacionamentos sérios.
Quando eu ouço isso no consultório faço outra pergunta: por que estamos tendo tanto medo de construir vínculos? Durante muito tempo acreditamos que o casamento era o destino natural da vida adulta. Hoje, os números mostram outro cenário: jovens se casam menos, mais tarde e muitos sequer desejam casar.
A partir daí rapidamente surgem as explicações simplistas: “Essa geração é egoísta.” “Não quer compromisso.” “Só pensa na carreira.” Embora essas afirmações possam conter elementos de verdade para algumas pessoas, elas não explicam o fenômeno inteiro.
Como terapeuta familiar, acredito que existe uma questão mais profunda — e a ciência tem me dado razão. Essa geração não nasceu com medo de amar. Ela “assistiu”! Assistiu aos pais brigando em silêncio. Assistiu a separações malconduzidas. Assistiu adultos usando os filhos como mensageiros de mágoas que não sabiam nomear. E isso não é impressão clínica. É dado de pesquisa.
Estudos em psicologia do apego mostram que filhos adultos de pais divorciados apresentam, em média, menor bem-estar emocional, relações menos positivas com os próprios pais e estilos de apego mais inseguros na vida adulta — o que inclui medo de intimidade, dificuldade de confiar e maior probabilidade de repetir o próprio divórcio.
Mas aqui está o ponto que muda tudo — e que eu preciso dizer com o máximo de responsabilidade: o fator decisivo não é o divórcio em si. É como ele foi conduzido.
A mesma pesquisa mostra que, quando há respeito entre os ex-cônjuges e liberdade emocional para o filho falar bem do outro pai ou mãe — sem lealdade forçada, sem ter que escolher lado —, a insegurança relacional na vida adulta diminui de forma significativa.
Ou seja. muito do medo de amar que vemos hoje na Geração Z é uma fatura sendo paga por uma conta que não foram eles que fizeram. E existe até um nome para isso na literatura científica: o “efeito retardado” (sleeper effect ), descrito pela psicóloga Judith Wallerstein em seus estudos longitudinais. Muitos filhos de pais separados não sentem o impacto emocional completo na infância — ele aparece anos depois, exatamente no momento em que tentam construir seus próprios vínculos adultos.
É por isso que tantos jovens hoje fogem do compromisso sem nem saber exatamente de onde vem esse medo.
Na minha prática clínica, é muito comum encontrar adultos jovens que carregam, sem saber nomear, um pacto silencioso: “Não vou repetir a dor que vi em casa.”
Só que, sem elaboração, esse pacto não protege — ele paralisa. Vira medo de compromisso disfarçado de independência. Vira exigência de perfeição no parceiro disfarçada de “alto padrão”. Vira fuga no primeiro sinal de conflito, porque conflito, para essa geração, aprendeu a significar catástrofe.
Isso não é fraqueza de caráter. É uma “lealdade invisível” — um conceito que a terapia familiar sistêmica reconhece há décadas: os filhos carregam, sem perceber, os padrões emocionais não resolvidos dos pais.
E aqui fica o alerta que eu, como mãe, terapeuta e mulher que atravessou essa travessia, preciso fazer: se você é pai ou mãe separado, a forma como você conduziu — ou está conduzindo — sua dor não fica só com você. Ela vira roteiro. Vira crença. Vira, às vezes, o motivo pelo qual seu filho adulto hoje tem pavor de se entregar a alguém.
Não é para gerar culpa. É para gerar consciência — porque só o que se nomeia pode ser transformado.
Vivemos em uma cultura que valoriza performance. Precisamos parecer fortes, bem resolvidos, produtivos, livres. Mas relacionamentos não sobrevivem de performance. Eles sobrevivem de presença — e presença exige vulnerabilidade, algo que muitos nunca viram um adulto sustentar de verdade.
Isso não significa defender relacionamentos a qualquer custo, nem permanecer onde existe violência, abuso ou desrespeito. Mas também precisamos reconhecer o outro extremo: confundimos desconforto com incompatibilidade, diferença com falta de amor, imperfeição com fracasso. E esquecemos que intimidade não elimina conflitos — ela ensina a atravessá-los.
Talvez o maior desafio da nova geração não seja encontrar alguém. Seja “desaprender” o que aprendeu, sem saber, observando os adultos que mais amaram.
A pergunta talvez nunca tenha sido “por que a Geração Z está ficando mais solteira?” A pergunta é: que herança emocional estamos deixando — e ainda dá tempo de revisar essa herança antes que ela vire destino?
Na terapia, aprendi que a cura não prepara alguém para encontrar a pessoa perfeita. Ela prepara alguém para construir um relacionamento possível, consciente e emocionalmente responsável — quebrando ciclos, e não os repassando.
Porque o amor não nasce pronto. Ele é cultivado por duas pessoas que decidem crescer juntas, e às vezes essa jornada começa muito antes: em curar o que aprendemos, sem querer, a temer.
E mais, a minha grande motivação em trabalhar este tema do “depois do divórcio” eu, como terapeuta de família e casal, vem desta constatação – por conta das nossas dificuldades em amar e manter vínculos saudáveis nos relacionamentos, nossos filhos podem estar pagando um preço muito alto.
Cura é antes de tudo responsabilidade ética de todos nós que optamos pelo divórcio, para que nossas futuras gerações não sofram além do que é natural para quem passa por esta experiência de vida. Fica a dica para reflexão!



