Por João Costa Bezerra
@psi.joaocosta
Existe um tipo de cansaço que não vem da quantidade de coisas a fazer, mas da tentativa constante de controlar a vida.
Controlar o que pode acontecer, o comportamento do outro, o resultado das situações, os riscos, as perdas, as mudanças inesperadas. Aos poucos, o controle deixa de ser organização e passa a ser uma estratégia emocional para lidar com o imprevisível.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, esse padrão está relacionado à necessidade de previsibilidade e à baixa tolerância à incerteza. Quando a mente entende que só existe segurança se tudo estiver sob controle, ela passa a operar em estado de vigilância, tentando antecipar e neutralizar qualquer possibilidade de ameaça.
Esse funcionamento costuma ser sustentado por crenças como:
“Se eu não controlar, algo ruim vai acontecer.”
“Se eu não me antecipar, vou ser pego de surpresa.”
Por trás do controle, muitas vezes existe medo.
Medo de errar.
Medo de perder pessoas importantes.
Medo de ser rejeitado.
Medo de ser surpreendido por situações difíceis.
O controle, nesse sentido, funciona como uma tentativa de afastar esses medos, como se prever tudo fosse uma forma de evitar sofrer.
No entanto, esse fenômeno não é apenas individual.
Do ponto de vista psicossocial, vivemos em um contexto em que a imprevisibilidade é pouco tolerada. Mudanças rápidas, instabilidade nas relações, experiências de insegurança ao longo da vida, rupturas afetivas, perdas e ambientes familiares inconsistentes podem contribuir para que o controle se torne uma forma de proteção aprendida.
Em alguns casos, controlar não nasce de rigidez, mas de sobrevivência emocional.
O problema é que a vida não é totalmente controlável.
Relações mudam, pessoas surpreendem, planos se alteram, e o inesperado faz parte da experiência humana. Quando a tentativa de controle se torna constante, a pessoa passa a viver em estado de alerta interno, como se algo estivesse sempre prestes a dar errado, mesmo quando nada está acontecendo.
Na prática clínica, esse padrão aparece associado à rigidez cognitiva, dificuldade de adaptação e sofrimento diante de situações que fogem do esperado. Muitas vezes, não é o evento em si que causa sofrimento, mas a quebra da necessidade de controle sobre ele.
A intervenção psicológica, especialmente na Terapia Cognitivo-Comportamental, não busca eliminar o planejamento ou a responsabilidade, mas ampliar a flexibilidade psicológica. Isso envolve aprender a lidar com a incerteza e desenvolver formas mais saudáveis de responder aos próprios medos, em vez de tentar eliminá-los através do controle.
Abrir mão da ilusão de controle não significa viver de forma desorganizada ou irresponsável. Significa reconhecer que parte da vida escapa ao nosso domínio e, ainda assim, pode ser vivida.
No lugar do controle absoluto, entra algo mais possível: presença, adaptação e a capacidade de sustentar o desconhecido sem precisar dominá-lo o tempo todo.
No fundo, o controle não nasce da força. Nasce do medo. E talvez o caminho não seja controlar mais, mas aprender a se relacionar melhor com aquilo que se teme.
Referências bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). DSM-5-TR: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2022.
BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2013.
BARLOW, David H. Anxiety and Its Disorders. New York: Guilford Press, 2002.
HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk D.; WILSON, Kelly G. Acceptance and Commitment Therapy. New York: Guilford Press, 2012.
GIDDENS, Anthony. Modernity and Self-Identity. Cambridge: Polity Press, 1991.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
Mini currículo
João Costa Bezerra é psicoterapeuta com atuação clínica voltada à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), DBT, Terapia do Esquema e Psicologia Analítica de Jung. Desenvolve conteúdos sobre saúde emocional, comportamento humano, relações interpessoais e processos de mudança psicológica, buscando aproximar conceitos da psicologia da experiência cotidiana.



