Por Eduardo Marques, Psicólogo.
@edumarquespsi
Nos últimos dias, viralizou um vídeo do influenciador Felca nas redes sociais, no qual o autor discorre acerca da adultização da infância nas redes sociais, apontando as “falhas” na matrix do algoritmo que permitem que pedófilos acessem e criem redes de distribuição e consumo de pornografia infantil.
No entanto, seriam esses elementos realmente falhas, ou será que o algoritmo é programado para tal? O que foi mostrado no vídeo é a facilidade com a qual a infância pode ser explorada através das redes, tanto por pessoas mal-intencionadas quanto por pessoas que afirmam desejar o bem da criança em questão.
As plataformas utilizadas para publicações de conteúdo como Instagram, YouTube e TikTok são, para além de um espaço de conexão e vinculação, um espaço de consumo e exploração — um mercado da atenção, para definir em poucas palavras. Cada segundo consumido conta. E, de quebra, temos um alcance de públicos variadíssimos e, mais importante, anônimos. Ou seja: direitos de imagem? Um clique de distância de ser só mais um conceito. Ética na utilização de conteúdo? Uma ilusão.
A sociedade tem se encontrado em um estado de adoecimento em massa tão grave, que nem percebemos o quanto um post que pode vir a viralizar representa um grande risco para uma criança que ainda está em fase de desenvolvimento cognitivo, social, identitário. E, para além disso, temos uma tendência a valorizar a fama vinda dessa exposição — estar nesse lugar gera uma fantasia no imaginário da população, tornando-se um objeto de desejo: almejar estar exposto e visto perante os outros.
Diante dessa perspectiva, temos também o advento dos “microempreendedores” — termo que chistosamente emprego para falar dos influenciadores mirins e personalidades da internet que são menores de idade. Não creio que a existência de um mercado para esse produto seja surpresa para ninguém. No entanto, se faz necessário relembrar que trabalho infantil segue sendo contra a lei no Brasil e que ser uma pessoa pública, um influencer, se constitui hoje como ocupação, sendo o trabalho de muitas pessoas na atualidade. Isso é ainda mais grave quando consideramos que a manutenção de um canal, perfil ou página online depende diretamente de engajamento e da monetização da atenção, como citei previamente, assim com do manejo parental na grande maioria dos casos.
Essa engrenagem não funciona dessa maneira por acidente — ela é parte de um modelo neoliberal em que tudo se torna mercadoria, inclusive a infância. A lógica do mercado da atenção treina desde cedo crianças e adolescentes para performarem versões “vendáveis” de si mesmos, transformando likes e visualizações em moeda social e, muitas vezes, em fonte de renda. Nesse cenário, a chamada “censura” das redes é seletiva: remove rapidamente conteúdos que ameaçam interesses corporativos, mas é lenta e ineficaz diante de crimes que ferem diretamente a dignidade humana. Enquanto isso, a hiperexposição corrói a saúde mental coletiva, normalizando uma existência em que o valor próprio é medido por métricas de engajamento e a esfera privada se dissolve em tempo real.
E então entramos com outra parte da discussão: a quem serve esse anonimato? A quem serve a impossibilidade de punição por crimes como pedofilia, misoginia, racismo, LGBTfobia etc.? A quem os comete, não é? A noção de liberdade de expressão disseminada no discurso contra a regulamentação das redes é pautada em uma realidade americana, onde a lei não protege as pessoas de discursos e atos de ódio, onde ser racista com alguém se torna direito protegido por constituição.
Tendo em vista que estamos no contexto brasileiro, onde há constitucionalmente uma proteção contra discursos e atos de ódio (principalmente os voltados para minorias), é importante questionar: seria a regulamentação das redes censura, ou um ato de soberania nacional, um dispositivo de manutenção e cumprimento da lei brasileira perante interesses das Big Techs?
A regulamentação, para além disso, representa uma forma de proteger a saúde mental e a integridade das pessoas que dessa rede desfrutam. O atual estado da internet representa, em termos bem simples, uma terra de ninguém, na qual a moeda é a atenção — algo que pode afetar, a longo prazo, diversos aspectos da vida individual e coletiva.
Se o mundo virtual é a própria realidade sob disfarce, talvez o maior truque tenha sido nos convencer de que estamos no controle. A verdade é que, enquanto discutimos se a regulamentação é censura ou proteção, vidas — especialmente as mais jovens — continuam sendo exploradas como matéria-prima desse grande mercado da atenção. Não se trata apenas de atualizar leis ou algoritmos, mas de repensar o tipo de sociedade que queremos ser quando a câmera está desligada. Porque, no fim, o que está em jogo não é apenas a liberdade de expressão, mas a liberdade de existir fora da lógica que transforma tudo — e todos — em produto.



