Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_Jackson_shella
“Autonomia afetiva” pode soar como conceito distante, mas ela é bem concreta. Não é virar uma ilha, não é “não precisar de ninguém”, tampouco é encarnar um “coração de gelo” que nunca sofre.
Autonomia afetiva é, antes de tudo, a capacidade de amar sem se abandonar.
Na prática, ela aparece quando:
Você consegue dizer “eu te amo”, mas não precisa deixar de dizer “eu não quero isso”, “isso me machuca”, “assim não dá”.
Você tem uma vida que inclui o outro, mas não se reduz ao outro: amigos, interesses, objetivos, rotina, prazer que não dependem só daquela relação.
Você sente medo de perder, sim, porque é humano, mas não aceita qualquer migalha para não lidar com esse medo.
Você sabe que ficar só dói, mas reconhece que se trair dói mais.
Amar com autonomia é como ter duas casas ligadas por uma ponte:
você pode atravessar, visitar, dormir junto, construir coisas em comum, mas continua tendo um lugar interno que é seu. Você não derruba a sua casa para morar definitivamente na casa do outro.
Caso clínico fictício: quando o medo manda mais do que o amor
Vamos a um caso fictício, inspirado em muitas histórias que se repetem com rostos diferentes.
Chame essa pessoa de Maria (poderia ser qualquer nome, qualquer gênero; o importante aqui é o padrão).
Maria tem 32 anos. Ela está há três anos em um relacionamento cheio de altos e baixos. Desde o início, percebeu sinais de desrespeito: piadas sobre seu corpo, críticas às suas escolhas profissionais, sumiços sem explicação.
Nas primeiras vezes em que ele “desapareceu”, Maria chorou muito, resolveu terminar, fez promessas a si mesma: “Nunca mais vou aceitar isso”.
Passados alguns dias, ele reaparecia com alguma justificativa: problemas no trabalho, confusão, estresse. Trazia flores, mensagens longas, pedidos de desculpa. Maria, então, pensava: “Talvez dessa vez mude”.
Não mudou.
Ao longo desses três anos, houve traições descobertas, mentiras, manipulações emocionais. Pessoas próximas diziam: “Você merece coisa melhor”, “Sai dessa”, “Você tá se destruindo”.
Maria também sabia disso, em alguma camada dela. Mas quando pensava em terminar de verdade, sentia um pânico físico: taquicardia, aperto no peito, sensação de desamparo absoluto.
O medo falava mais alto:
“E se ninguém mais me quiser?”
“E se eu ficar sozinha pra sempre?”
“Pelo menos eu tenho alguém…”
Maria até conseguia terminar. Bloqueava, apagava fotos, chorava, dizia a si mesma que era definitivo.
Mas bastava passar uma semana, um mês, ou uma noite particularmente solitária, para ela reabrir a porta. Uma mensagem dele, um “sinto saudades”, e o ciclo recomeçava.
O mais importante aqui não é julgá-la.
É perceber o padrão:
Maria aguenta traições e abusos porque o medo de ficar só é maior do que a dor de ficar mal acompanhada.
Ela pensa que está “amando demais”, mas, em profundidade, está tentando desesperadamente se proteger de um vazio antigo – o medo de não ser amada por ninguém.
Se olharmos com uma lente psicanalítica (sem jargão), podemos imaginar que Maria aprendeu, em algum momento da vida, que precisa “segurar o outro” a qualquer custo. Talvez tenha vivido experiências antigas de abandono, ausência emocional, trocas afetivas condicionadas a desempenho (“só sou amada se…”, “só sou vista quando…”).
O parceiro atual é, então, uma espécie de “encenação repetida”:
a mesma sensação de mendigar atenção, de viver em função do humor do outro, de temer o abandono permanentemente.
E note: mesmo que o parceiro mude, o padrão pode se repetir.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



