Por Eduardo Marques, Psicólogo
@edumarquespsi
Leitura recomendada para maiores de 16 anos
Essa semana me chamou muita atenção uma conversa acerca do desinvestimento libidinal — uma retirada massiva de energia vital e de interesse — vivenciado pela juventude. Um professor, ao discutir o texto “Inibição Sintoma e Angústia” de Freud, fez uma correlação certeira: o excesso de consumo das redes sociais, o burnout e a fadiga crônica seriam a face moderna de uma inibição em excesso.
Mas o que a psicanálise entende por inibição? De acordo com Freud, ela está atrelada a uma lógica de economia da energia psíquica. É um conceito que pensa a nossa mente como um aparelho que precisa administrar um recurso finito: a libido. A inibição, então, é como se o sujeito inconscientemente “pisasse no freio” e deixasse de fazer algo que deseja, não por uma incapacidade, mas para poupar essa energia. É uma espécie de austeridade da psique.
Um exemplo muito concreto disso foi levantado na aula: o alto consumo de conteúdo adulto nas redes sociais em prol da relação sexual propriamente dita. Essa troca é reveladora. Trata-se de um movimento autoerótico (que encontra a satisfação no próprio corpo) ligado à pulsão escópica (a pulsão de ver, de olhar), que parece estar substituindo o “trabalho” físico e psíquico do encontro real com o outro. É a satisfação solitária que poupa a energia que seria gasta na complexidade de um encontro a dois.
É nesse processo de deslocamento do desejo que se constitui o cerne do que vivemos como fadiga crônica: a inibição do desejo sexual leva o sujeito a sintomatizar. Como a energia não foi investida nem poupada de forma saudável, ela encontra saída pela negação do próprio desejo, e a angústia se estabelece. E aqui é crucial diferenciar: a ansiedade muitas vezes está ligada a um objeto ou situação futura, a um “medo de”. Já a angústia psicanalítica, da forma como discuto, vem do não dito, do não simbolizado. Ela é uma resposta a algo que não pode ser nomeado, e por isso repercute diretamente no corpo através do sintoma — seja o cansaço extremo, a apatia ou a famosa “falta de libido”.
Tendo em vista o contexto atual, percebe-se com certa facilidade que vivemos em um cenário que é o terreno fértil perfeito para isso. Um contexto de canseira e ansiedade generalizado, fortificado pelas altas cargas laborais, crises geopolíticas e pelo próprio ritmo da vida. O processo de inibição, que é um mecanismo normal e nem sempre patológico, toma assim proporções epidêmicas. Ele se apresenta não só na esfera sexual, mas também através da inibição do desejo de trabalhar — principalmente quando pensamos na forma exacerbada e raramente justamente remunerada que o trabalho se impõe hoje.
Para que haja a possibilidade de que consigamos contornar o desejo da fuga, seja do trabalho ou outras formas de inibição, se faz necessário que o investimento depositado na função laboral venha acompanhado de fatores que levem ao prazer — algo que poderia vir pela remuneração, reconhecimento, ou pela própria função exercida. Alternativamente, se apresenta como possibilidade para a regulação desse desejo de inércia a negociação entre as esferas do Eu e do Super-Eu em relação ao Id, que de certa forma coordena a relação entre a inibição e os direcionamentos libidinais.
A pergunta que não quer calar é: para onde está fluindo toda essa energia libidinal que não investimos mais no outro nem no trabalho? O cansaço crônico seria, então, o sintoma final dessa economia psíquica falida. O preço que se paga por uma poupança que, no fim das contas, nunca nos leva ao lucro do prazer.
Sobre o autor:
Psicólogo clínico formado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, atualmente cursando o Mestrado Profissional em Psicologia e Intervenções em Saúde pela mesma instituição, e com produções acadêmicas no âmbito de Dissidências de Sexualidade e de Gênero, assim como acerca da formação em Psicologia
Referências:
Freud, S. (1926). Inibição, sintoma e angústia. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 20, pp. 95-204). Imago.
Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (Vol. 7, pp. 123-252). Imago.
Han, B.-C. (2015). The burnout society. Stanford University Press.
Kehl, M. R. (2004). O tempo e o cão: a atualidade das depressões. Boitempo.
Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Zahar.
Quinet, A. (2019). As 4+1 condições da análise. Zahar.



