Por Paulinho Goetze
@paulinhogoetze
No último dia 29 de setembro completou 8 anos da morte da cantora, atriz e apresentadora Hebe Camargo. Para além da vida artística, frente às câmeras, Hebe teve uma vida marcada pela alegria, mas também pela luta e pela liberdade.
Hebe nasceu em Taubaté, interior de São Paulo, em 8 de março de 1929, numa família grande (ela era a sétima filha). Se mudou para a capital em 1943, aos 14 anos, e, como seu pai era violinista e cantor, sempre levava Hebe consigo nas apresentações em programas de rádio. Aos 15 anos, na Rádio Tupi, ela começou a cantar e, logo depois, junto com uma das irmãs e duas primas, criou o quarteto Dó-Ré-Mi-Fá, que virou trio, dupla e enfim, seguiu carreira solo. Em 1950, foi convidada por Assis Chateaubriand para estar no porto de Santos a fim de receber as máquinas para a inauguração da primeira emissora de TV do Brasil, a Rede Tupi. Neste mesmo ano, foi convidada para cantar o Hino da Televisão Brasileira na inauguração e primeira transmissão ao vivo, mas como considerou a letra muito ruim, deixou pra Lolita Rodrigues cantar. Em entrevista no Programa do Jô, em 2000, ela contou que preferiu ir a um evento com seu namorado na época, o empresário Luis Ramos, a ir cantar o tal hino. Estrelou, pouco tempo depois, o primeiro videoclipe musical da TV brasileira, ao lado de Ivon Curi.
Em 1955, estreou o primeiro programa feminino da TV, “O Mundo é das Mulheres”, dirigido por Walter Foster. Estreou na TV Record em 1966, onde ficou até 1973. Em 1979 foi para a Bandeirantes nas noites de domingo e, por fim, em 1986 surgiu pela primeira vez no SBT, que foi sua “casa” até o fim, não fosse por uma breve passagem pela Rede TV! em 2011 e 2012, ano em que voltaria para o SBT, o que não houve tempo devido a sua morte em 29 de setembro de 2012.
Após sua morte, Hebe foi homenageada dando nome a duas avenidas, uma na capital paulista e outra na cidade de Mogi das Cruzes. Além disso foi criada uma megaexposição no ano passado, ano em que Hebe completaria 90 anos, em dois andares do Farol Santander, no centro de São Paulo, com 28 modelos de vestidos, 74 pares de sapatos e interatividade que incluiu uma entrevista frente a frente com Hebe através de projeção holográfica, e uma foto dando o famoso selinho, uma das marcas registradas da apresentadora. Em 2017 estreou o espetáculo “Hebe – O Musical”, escrito por Artur Xexéo, que também é o autor da biografia de Hebe, e dirigido por Miguel Falabella.

Uma das mais populares homenagens póstumas foi o filme e a série “Hebe – A Estrela do Brasil”. O filme conta a trajetória da apresentadora durante dois anos de sua vida, já famosa, enquanto que a série mostra desde a juventude, quando ainda buscava o estrelato, até a sua morte. Na TV Globo, a série teve seu último episódio na semana passada. Algumas polêmicas estiveram em torno dessa obra desde o lançamento, em 2019. A polêmica que mais viralizou é a de que o filho da apresentadora, Marcello Camargo, não teria gostado da série pois não reconheceu sua mãe e alguns eventos mostrados. Trago aqui a minha opinião. Obviamente que nenhum filme ou série ou até mesmo livro se equipara à vida vivida propriamente dita. Filmes biográficos, principalmente, têm um cunho ficcional muito evidente, afinal, trata-se de uma vida inteira contada em mais ou menos 2 horas e é preciso despertar interesse no espectador. Ainda no caso da série, que contando todos os episódios chega a 10 horas, uma vida como a de Hebe, que viveu 83 anos, torna-se impossível de narrar integralmente. Marcello pontua a total aversão dela a uísque, por exemplo, o que na série não acontece, ou ainda que as brigas entre ela e o segundo marido, Lélio Ravagnani, não chegavam às agressões físicas como é mostrado, ficavam restritas aos gritos, o que também é considerado agressão, e em nada diminui o brilho da vida vitoriosa que teve. O fato é que, a meu ver, “Hebe – A Estrela do Brasil”, já no nome, é uma homenagem muito bonita e cuidadosa à maior apresentadora que esse país já conheceu. Ainda lembro como eram as segundas-feiras na minha casa, quando muitas vezes assisti ao programa Hebe deitado no colo de minha avó, o que me confere até hoje um carinho muito grande pela apresentadora e me remete a momentos de muito afeto.
Hebe ganhou todas as edições do Troféu Imprensa a que concorreu (foram mais de 20), ganhou prêmios de Melhor Apresentadora pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), recebeu o Prêmio Mário Lago, na Rede Globo, em 2010, gravou discos, lançou modas. Uma mulher à frente de seu tempo, Hebe ficou conhecida por sua irreverência, coragem e generosidade. Sendo mulher, em momentos muito duros da nossa história, enfrentou poderosas estruturas machistas e sexistas.
Ninguém discorda quando o assunto é Hebe.
Insubstituível!
Até a próxima quarta!
Fontes:
Imagem 1: Site Forbes, publicado em 18 de fevereiro de 2019
Imagem 2: Site Adoro Cinema, publicado em 29 de dezembro de 2019



