Por Eduardo Marques
Psicólogo CRP03/32029
Classificação indicativa Livre
@edumarquespsi
Durante os dias 5, 6 e 7 de setembro, ocorreu o XII Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana na cidade de Belo Horizonte, congresso bienal que reúne membros da Federação Americana de Psicanálise da Orientação Lacaniana (FAPOL), Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), Escuela de la Orientación Lacaniana (EOL) e da Nueva Escuela Lacaniana del Campo Freudiano (NELcf). Neste ano, a temática orientadora das mesas e plenárias foi o falar com a criança no setting analítico, um eixo crucial que confronta a tendência contemporânea de normalização da infância.
Muito se discorreu sobre a infância propriamente dita, mas também sobre o que significa a infância em termos do inconsciente. A teoria psicanalítica aponta que ela não é apenas uma fase cronológica, mas um processo contínuo de vida, uma estruturação subjetiva inacabada e atemporal que se prolonga até o último momento de nossas vidas. Com isso, quero dizer que, a nível inconsciente, seguimos sendo Infanz, seres marcados pela linguagem e por aquelas primeiras marcas significantes – os ditos e não-ditos familiares, os traumas no sentido estrutural – que inscreveram em nós um modo único de desejar e de gozar, e que continuam a ressoar e a se repetir.
Os colegas que discorreram acerca de suas experiências clínicas e de passes (movimento de conclusão de análise onde se apresenta seu processo enquanto analisando para a comunidade psicanalítica) trouxeram em suas discussões a presença dessa infância contínua, assim como o aprendizado decorrente de algo que na sociedade se tem um hábito de olhar com menos-valia: a infância e as crianças. Eles expuseram de diversas formas como o mundo adulto, regido pela lógica do desempenho, reprime e escanteia a verdade singular da experiência infantil, algo com o qual devemos aprender a retornar e valorizar. Esse “retorno”, no entanto, não é um mergulho na nostalgia, mas um ato de escuta da sabedoria sintomática da criança – tanto a real quanto aquela que habita cada adulto –, entendendo que nela se expressa uma verdade sobre seu desejo e seu sofrimento.
Algo que se apresentou como fator de importância em termos de percepção da infância em pessoas adultas foi a relação com a linguagem e a maneira como ela atua em uma dupla face. De um lado, ela está no âmbito do simbólico, dando contorno e significação ao mundo. De outro, e fundamental para falar com a criança, opera através de Lalíngua — termo empregado por Lacan para denotar não apenas ruídos, entonações e “erros”, mas a face mais gozosa e material da linguagem. São os sons, a musicalidade, os trocadilhos involuntários e os equívocos que transbordam o sentido comunicativo e carregam uma carga pura de afeto, aquilo que é incorporado pela criança antes de ser plenamente compreendido.
Esse fator denota que “falar com a criança” vai muito além de uma conversa orientadora. É, sobretudo, saber escutar a Lalíngua que pulsa em sua fala e em seus sintomas. No setting analítico, seja com crianças ou adultos, o analista se coloca como um parceiro que se deixa afetar por essa Lalíngua, jogando com ela por meio do desenho, da brincadeira ou da própria fala, para criar pontos de capitonê – momentos de significação que possam dar um novo rumo ao mal-estar. É reconhecer que o inconsciente, estruturado como linguagem, se alimenta tanto da gramática quanto do nonsense de Lalíngua, e que é frequentemente nesse registro que a criança – e a criança que ainda somos – consegue finalmente se fazer ouvir.
Dessa forma, a psicanálise lacaniana se coloca em uma posição ética crucial frente à infância: ela não busca silenciar a criança com diagnósticos rápidos ou adaptá-la a normas, mas sim dar-lhe a palavra – ou melhor, dar espaço para que sua Lalíngua singular encontre, através de um outro (o analista), pontos de amarração que transformem o mal-estar em possibilidade de vida. É um lembrete poderoso de que falar com a criança é, antes de tudo, concordar em aprender sua língua.
Referências:
Lacan, J. (2005). O Seminário, livro 23: O sinthoma (1975-1976). Editora Zahar.
Lacan, J. (1998). Escritos. Editora Zahar.
Jerusalinsky, A. (2022). Psicanálise do autismo: Uma leitura lacaniana. Editora Blucher.
Vorcaro, A. (2011). Crianças na psicanálise: Clínica, instituição, laço social. Editora Companhia de Freud.




Me parece que aprender uma língua na análise é libertar alguns ruídos de lalingua. Prender a língua, numa gramática funcional/disfuncional, nos faz esquecer da função de um sintoma – parte fundamental de um enredo, uma solução pra vida.
Ouvir a criança é falar com o sentido, com sua falta e seu sintoma.
Citando uma invenção da clínica: tem vezes que o que aparece é “abluptderupt” rsrs