Por Dra Thayse Santos
@dra.thaysesantos
@veridiana.mediciapericial
Poucas doenças despertam tantas dúvidas quanto a fibromialgia. Ela é motivo de debates, incompreensões e, infelizmente, de muitos preconceitos. Não é raro ouvir frases como: “Mas os exames estão normais” ou “Isso deve ser apenas estresse”. A ciência, porém, já demonstrou que a realidade é bem diferente.
A fibromialgia é uma síndrome caracterizada por dor musculoesquelética difusa, frequentemente acompanhada de fadiga, alterações do sono, dificuldade de concentração, sensação de rigidez e outros sintomas que podem comprometer significativamente a qualidade de vida. Embora não exista um exame específico que confirme seu diagnóstico, isso não significa que a doença não exista.
O diagnóstico é clínico, realizado pelo médico por meio da história do paciente, do exame físico e da avaliação criteriosa dos sintomas, sempre considerando outras condições que possam causar manifestações semelhantes. Mas, quando o assunto é perícia médica, surge uma pergunta importante: Como avaliar uma doença que muitas vezes não aparece nos exames? A resposta está no próprio objetivo da perícia.
O médico perito não procura apenas identificar um diagnóstico. Seu papel é compreender de que forma aquela condição repercute na vida da pessoa. A dor limita os movimentos? A fadiga impede a realização das atividades habituais? O paciente consegue exercer sua profissão com segurança e qualidade? O tratamento está sendo realizado de forma adequada? Como tem sido a evolução do quadro clínico? Essas são algumas das perguntas que orientam a avaliação. Na medicina pericial, a análise é sempre individualizada. Não existem conclusões automáticas.
Há pessoas com fibromialgia que conseguem manter suas atividades profissionais com acompanhamento médico e tratamento adequado. Outras apresentam limitações importantes, que variam conforme a intensidade dos sintomas, a resposta ao tratamento, a profissão exercida e as características de cada indivíduo. Por isso, o simples diagnóstico de fibromialgia não determina, por si só, a existência de incapacidade.
Da mesma forma, a ausência de alterações em exames não significa ausência de sofrimento. A perícia médica busca justamente equilibrar esses dois aspectos: reconhecer a realidade clínica da doença e avaliar, de maneira técnica, objetiva e imparcial, quais são suas repercussões funcionais. Nos últimos anos, a medicina tem ampliado sua compreensão sobre as dores crônicas e sobre a importância de considerar o impacto dessas condições na vida das pessoas. Esse avanço permite avaliações cada vez mais completas, baseadas não apenas em exames, mas também na funcionalidade, na história clínica e nas evidências científicas disponíveis.
Ao final, a pergunta mais importante deixa de ser “A pessoa tem fibromialgia?” e passa a ser: “Como a fibromialgia interfere na vida dessa pessoa?” É essa resposta que orienta o trabalho da medicina pericial e contribui para decisões mais justas, responsáveis e fundamentadas.
Possuir essa compreensão é fundamental para a sociedade porque informação também é cuidado. Nos encontramos na próxima coluna.
Dra. Thayse Santos, é médica especialista e atuante nas áreas de Perícia Médica Judicial, saúde mental, beleza e qualidade de vida. Atua como perita médica junto ao Poder Judiciário, realizando avaliações técnicas em processos judiciais com enfoque ético, humanizado e baseado em evidências científicas.
Esta coluna busca aproximar o público do universo da perícia médica por meio de uma linguagem clara, acessível e acolhedora, traduzindo temas técnicos para o cotidiano das pessoas.



