Por Carla Perin
@cacaperin
Dias dentro de casa aproximaram tutores de seus animais — e fizeram um problema silencioso ficar mais evidente
Nos últimos dias, com períodos de chuva mais frequentes, observei uma situação curiosa na clínica. Passeios diminuíram, portas e janelas ficaram mais fechadas e muitos animais passaram mais tempo dentro de casa, próximos de seus tutores. Mais tempo no sofá. Mais colo. Mais proximidade. E foi justamente essa aproximação que fez algumas famílias perceberem algo que talvez já estivesse ali havia bastante tempo: “Doutora, o hálito dele está muito ruim.” as consultas vieram e vários desses animais, encontramos uma quantidade importante de tártaro e sinais de doença periodontal. Claro que a chuva não provocou o problema. Ela apenas aproximou o tutor o suficiente para percebê-lo. Mau hálito não deve ser considerado normal existe uma ideia bastante comum de que cachorro naturalmente tem mau hálito. Não deveria ser assim. O odor desagradável persistente pode ser um dos primeiros sinais de que alguma coisa não está bem na boca. A placa bacteriana se acumula sobre os dentes e, quando não é removida adequadamente, pode mineralizar e formar o cálculo dentário — aquilo que popularmente chamamos de tártaro. Com o tempo, as bactérias e a inflamação podem atingir a gengiva e os tecidos que sustentam os dentes, levando à doença periodontal. E aquilo que o tutor percebe inicialmente apenas como “bafo” pode estar acompanhado de gengiva avermelhada, sangramento, dor, retração gengival, dentes comprometidos e dificuldade para mastigar. O problema é que muitos cães continuam comendo mesmo sentindo desconforto. Por isso, esperar que o animal pare de comer para procurar ajuda pode significar esperar demais. A limpeza dentária não deve ser feita simplesmente para deixar os dentes mais bonitos ou o hálito agradável. Quando existe doença periodontal, o objetivo é avaliar toda a boca e tratar adequadamente o que está acontecendo abaixo e acima da linha da gengiva. Dependendo do comprometimento, alguns dentes podem inclusive precisar ser extraídos. Por isso, cada animal deve ser avaliado individualmente pelo médico-veterinário, inclusive quanto às condições necessárias para a realização segura do procedimento sob anestesia. Depois do tratamento, o cuidado continua em casa. A escovação regular com produtos próprios para animais é uma das medidas mais importantes para reduzir novamente o acúmulo de placa bacteriana, associada ao acompanhamento odontológico veterinário. Achei interessante perceber o que aconteceu nesses dias de chuva. Os animais ficaram mais dentro de casa. Os tutores ficaram mais perto deles. E aquilo que talvez passasse despercebido na correria cotidiana finalmente foi notado. Talvez exista uma pequena reflexão nisso. Cuidar não acontece somente quando alguma coisa fica evidente. Também acontece quando paramos para observar. Olhe os dentes do seu animal. Observe a gengiva. Perceba mudanças no hálito, na maneira de mastigar e na escolha dos alimentos. E, de vez em quando, chegue um pouquinho mais perto. Porque algumas doenças não fazem barulho. Às vezes, elas começam apenas com um cheiro diferente que só percebemos quando estamos próximos o bastante para sentir.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



