Por Paulinho Goetze
@paulinhogoetze
No último sábado, dia 26 de setembro, a voz cristal da nossa MPB completou 75 anos. Maria da Graça Costa Penna Burgos, ou simplesmente Gal Costa, chega aos 75 anos festejada como uma das vozes mais incríveis da música popular brasileira e, em comemoração ao seu aniversário, Gal realizou uma live em parceria com o canal de TV “TNT” e transmissão simultânea pelo YouTube. Logo nos primeiros momentos, o tão aguardado encontro da cantora com suas admiradoras e admiradores já deixou a desejar: o ambiente escuro e cheio de fumaça, as câmeras que reproduziam um terremoto causando labirintite na audiência, além de um vai e vem com Gal pra lá e pra cá dentro do cenário e para as janelas da casa onde ocorreu a gravação. Obviamente uma falta de respeito com um dos baluartes da nossa cultura. Muitas críticas imediatamente chegaram às redes e a live sequer ficou salva (a não ser por registros feitos por fãs da cantora) e o Instagram da diretora, Laís Bodansky, foi bloqueado, possivelmente pela quantidade de mensagens. Um show de horrores não fosse pela voz tamanha da aniversariante e pelo repertório primoroso escolhido para o momento. Isso foi o que mais li no dia e nos dias subsequentes à live comemorativa.

Feito esse desabafo (sim, foi um desabafo porque fiquei muito triste com o que pareceu ser descaso com uma das maiores vozes do Brasil e uma grande referência pra mim), vamos celebrar Gal!
Gal Costa gravou seu primeiro disco, “Domingo”, um compacto simples junto com Caetano Veloso, em 1967. Eles se conheceram em uma loja de discos onde a cantora trabalhava e tinham em comum a enorme admiração por João Gilberto. O disco solo, “Gal Costa”, viria em 1969. Antes da primeira gravação, ainda em 1964, estreou em Salvador os espetáculos “Nós, Por Exemplo”, ao lado de Maria Bethânia, Caetano, Gilberto Gil e Tom Zé, e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, no mesmo ano e com os mesmos parceiros. Em 1968 participou do disco “Tropicália ou Panis et Circencis”, um marco do movimento tropicalista que mudou para sempre a música brasileira e fez escola para todas as gerações que vieram depois. Nesse disco, inclusive, tem o primeiro grande sucesso de Gal, a canção “Baby”, hino de Caetano Veloso. Participou de vários Festivais e continuou sua trajetória com grandes gravações históricas e definitivas, a exemplo de “Divino Maravilhoso”, de Caetano e Gil, “Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)”, de Jorge Benjor, e “Sua Estupidez”, de Roberto e Erasmo Carlos.

Corajosa, em 1973 lançou o disco “Índia” em que trazia, na capa, uma foto de biquíni em que a parte de baixo aparecia em close. Por conta da Ditadura Militar, o disco foi vendido com um invólucro de plástico preto. Fazendo um grande pulo na história, Gal gravou, em 2011, o disco “Recanto”, com produção de Caetano Veloso e Moreno Veloso, em que trouxe para a sua discografia os arranjos eletrônicos. O disco foi eleito o melhor daquele ano.
Praticamente todos os anos, Gal Costa lança um novo trabalho e procura se reinventar e se atualizar. Nos últimos anos, além do disco eletrônico citado acima, ela gravou álbuns elogiadíssimos pelo público e pela crítica, como “Estratosférica”, de 2015, em que comemorou 50 anos de carreira trazendo compositoras e compositores da nova (e ótima) safra da MPB, a exemplo de Céu, Criollo e Malu Magalhães. Seu mais recente trabalho, já no título “A Pele do Futuro” (2018), fala muito sobre o que penso dela: uma artista com muitas raízes e antenas… atenta ao que acontece no mundo, mas com suas referências fincadas no solo fértil da Bahia. Foi o que escrevi no meu livro sobre Daniela Mercury e é o que sinto também quando reflito sobre Gal.
Ouçam Gal! Respeitem Gal! Vivam Gal!
Até a próxima quarta!
Fontes:
Imagem 1: Site da Revista Época, publicado em 27 de setembro de 2020
Imagem 2: Site do Jornal Correio da Bahia, publicado em 27 de setembro de 2020
Imagem 3: Site 80 Minutos, publicado em 24 de maio de 2018




Concordo em parte. Mas infelizmente não podemos tapar o sol com a peneira. A grande marca da Gal é a voz, e essa, para os seus fãs realistas está longe de ser o que era.
Triste, muito triste mas o peso da idade chegou.
Ave Gal!!!!