Por Dra Thayse Santos
@veridiana.mediciapericial
@dra.thaysesantos
A inteligência artificial está transformando a medicina e também começa a ganhar espaço na perícia médica judicial. Mas até que ponto essa tecnologia pode contribuir para decisões que envolvem a saúde, a capacidade de trabalho e os direitos das pessoas? Na perícia médica, a análise vai muito além de um diagnóstico. É necessário avaliar documentos, exames, histórico clínico, limitações funcionais e a possível relação entre doenças e atividades profissionais.
Nesse contexto, a inteligência artificial pode ser uma importante aliada, auxiliando na organização de prontuários, na elaboração de cronologias médicas e na pesquisa de evidências científicas. Isso permite maior agilidade na análise documental e pode contribuir para a eficiência do trabalho pericial. Entretanto, organizar informações não significa interpretá-las corretamente. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar capacidades funcionais completamente diferentes. Uma hérnia de disco, por exemplo, pode não comprometer o trabalho de um profissional administrativo, mas representar limitações importantes para alguém que realiza esforço físico intenso.
Essa avaliação exige conhecimento médico, exame clínico e análise individualizada, elementos que não podem ser substituídos por respostas automatizadas. Outro cuidado fundamental envolve a confiabilidade das informações. Sistemas de inteligência artificial podem produzir interpretações equivocadas, omitir dados relevantes e até apresentar referências científicas inexistentes. Na perícia judicial, esses erros podem comprometer conclusões e influenciar decisões importantes. Também é indispensável observar o sigilo médico e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), uma vez que os documentos periciais frequentemente contêm informações sensíveis sobre a saúde das pessoas.
Em 2026, o Conselho Federal de Medicina regulamentou o uso da inteligência artificial na prática médica, por meio da Resolução CFM nº 2.454/2026, reforçando a importância da autonomia profissional, da segurança e da responsabilidade médica. A tecnologia deve auxiliar o médico perito, nunca substituir seu julgamento técnico. O futuro da perícia médica certamente contará com ferramentas cada vez mais avançadas. Contudo, a imparcialidade, o raciocínio clínico, a interpretação das evidências e a responsabilidade pelas conclusões continuarão sendo atribuições humanas.
Afinal, quando estão em discussão a saúde e os direitos de uma pessoa, a inteligência artificial deve estar a serviço da Justiça, e não ocupar o lugar de quem tem a responsabilidade de avaliá-la. A inteligência artificial pode organizar as evidências. Mas é o médico perito quem deve interpretá-las e responder por suas conclusões.



