Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, a pessoa não percebe que está cansada porque passou o dia trabalhando, cuidando da casa ou enfrentando compromissos. Ela está cansada porque passou horas tentando manter alguém bem.
Eu penso nisso quando observo aquela cena tão comum: a mensagem que não chega, o silêncio que se prolonga, e a pessoa interrompendo o próprio jantar para verificar se fez algo errado. O prato esfria. O corpo permanece à mesa, mas a mente está tentando adivinhar o humor do outro, encontrar uma explicação, evitar um conflito que talvez nem tenha começado.
Em outra situação, alguém cancela um encontro, deixa de descansar ou abandona um desejo pessoal porque acredita que o parceiro, um familiar ou um amigo precisa dela o tempo todo. Não diz “não” por medo de decepcionar. Não expressa o que sente por receio de provocar uma reação. Aos poucos, vai confundindo amor com vigilância, cuidado com sacrifício e presença com obrigação.
Neste mês, em que lembramos o Dia Mundial da Saúde Mental, em 10 de outubro, e o Dia da Alimentação, em 16 de outubro, eu gostaria de aproximar essas duas datas de uma maneira muito concreta. Assim como o corpo precisa de alimento, água e sono para se manter vivo, a nossa vida emocional também precisa de cuidado. E esse cuidado inclui observar o que estamos colocando para dentro não apenas no prato, mas também nas relações.
Há vínculos que alimentam. Há outros que nos deixam sempre em estado de alerta.
Eu não acredito que cuidar da saúde mental signifique viver sem conflitos, frustrações ou tristezas. A vida não oferece esse tipo de garantia. Mas acredito que podemos aprender a perceber quando uma relação começa a exigir de nós um abandono constante: dos nossos limites, da nossa voz, do nosso tempo e até da nossa percepção sobre o que estamos vivendo.
Autonomia afetiva não é deixar de amar, nem se tornar indiferente. É conseguir amar sem desaparecer. É compreender que eu posso me importar com o bem-estar de alguém sem assumir a responsabilidade pela felicidade dessa pessoa. Posso oferecer presença, escuta e carinho, mas não posso viver por ela, decidir tudo por ela ou impedir que ela enfrente as próprias escolhas.
Essa compreensão, muitas vezes, chega acompanhada de uma dor. Porque, quando começo a me posicionar, talvez alguém diga que mudei. E eu mudei mesmo. Talvez eu apenas tenha parado de me abandonar para continuar sendo aceito.
Para esta semana, proponho um exercício simples de auto-observação. Ao perceber ansiedade, culpa ou exaustão depois de uma interação, pare por alguns minutos e anote:
O que aconteceu?
O que eu senti?
O que eu fiz para evitar o desconforto do outro?
O que eu gostaria de ter dito ou feito por mim?
Não é necessário responder tudo imediatamente. O objetivo não é julgar suas escolhas, mas começar a enxergar os momentos em que você entrega a própria tranquilidade para administrar emoções alheias.
Também vou levar essa reflexão com a pergunta:
“Você já se sentiu responsável pela felicidade do outro?”
Talvez sua resposta seja: “Sim, e isso me esgotou.”
Isso porque essa resposta alcança muitas pessoas porque, em algum momento, quase todos nós já confundimos cuidado com controle e amor com renúncia permanente.
Mas existe um caminho de volta. Ele começa quando eu reconheço que minha saúde também merece espaço, alimento e descanso. Começa quando entendo que dizer “não” pode ser uma forma de preservar o vínculo e, principalmente, de preservar a mim mesmo.
Cuidar de si não é colocar o outro para fora da vida. É voltar a ocupar, dentro dela, um lugar que nunca deveria ter sido abandonado.
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



