Por Eduardo Marques, psicologo CRP03/32029
@edumarquespsi
O luto é um processo que ocorre para todos em diferentes momentos e circunstâncias únicas. No entanto, ele se apresenta sempre pela promessa distante de um destino comum. Por mais distante que a perda possa parecer, esse momento de nossas vidas se manifesta de forma atemporal, mesmo que em alguns instantes se torne mais visível para a consciência.
Vazio, euforia, desconexão, tristeza, falta… algumas das palavras que podem descrever um processo de luto. É um processo ambíguo, confuso e real, que pode ser tanto antecipado quanto póstumo, aplicando-se igualmente a momentos de perda de um ente querido em vida, como a uma antecipação da morte.
É comum buscarmos orientação nos conhecidos “estágios do luto” – negação, raiva, barganha, depressão e aceitação – como se fossem um mapa para navegar pela perda. Mas é crucial entendermos: esses estágios não são uma escada linear a ser subida, muito menos uma receita com tempo determinado. São antes ondas que vêm e voltam, às vezes se sobrepondo, outras vezes dando a ilusão de que retrocedemos. A negação pode nos visitar meses depois de acharmos que a tínhamos superado; a raiva pode surgir onde esperávamos resignação. A aceitação, por sua vez, não é um ponto final, mas um porto do qual às vezes nos afastamos para depois voltar.
O luto antecipado, tão elusivo quanto o não classificado, pode se construir a partir de uma perda gradual de alguém que sofre de alguma doença crônica ou degenerativa, da mesma forma que pode emergir de uma situação completamente fantasiosa, trazendo uma característica interessante: a dissolução de uma representação da pessoa perdida. Em outras palavras, uma perda de quem a pessoa fora outrora, ou de quem o sujeito enlutado atribuía ao outro.
E é justamente nessa não-linearidade que alguns de nós podemos encontrar uma experiência particularmente desafiadora: a paralisia perante a perda. Não é raro que o luto se manifeste como uma impossibilidade de seguir adiante – um congelamento do tempo interno, onde até as tarefas mais simples parecem intransponíveis. O mundo continua girando, mas para quem está paralisado, há uma desconexão profunda com o movimento da vida. Esse estado não é sinal de fraqueza: é o psiquismo dizendo que precisa de tempo para assimilar o inassimilável.
Em sua diversidade, o luto nos ensina sobre tempo, cura e perda. Em termos de análise clínica, nunca se consegue mensurar o que aquele Outro representou para quem perde, algo que podemos apenas imaginar e aproximar de uma ideia quantitativa. No entanto, há a possibilidade de se classificar a experiência de perda como algo que indique um processo de luto estendido, algo que excede o período estimado de processamento da perda.
Em alguns manuais diagnósticos é possível encontrar essa descrição, mas como tratar uma dor que não apresenta objeto de queixa, uma dor na qual a própria queixa é um objeto perdido? A fala é um caminho, claro, assim como outras formas de catarse, mas onde está a linha entre o patológico e o subjetivo? O que determina um processo de luto como fator passível de medicalização e diagnóstico?
Se me permitem aprofundar a reflexão, gostaria de questionar essa mesma linha tênue. A medicalização do sofrimento surge como resposta a uma sociedade que perdeu a capacidade de acolher a dor alheia em seu tempo próprio. Quando transformamos luto em transtorno, corremos o risco de negar o trabalho psíquico fundamental que a perda exige: o de reconfigurar nossa existência em torno da ausência.
Não se trata de negar a existência de casos que demandem intervenção – há paralisações que precisam de apoio especializado. Mas a pergunta que fica é: apoiar para quê? Para eliminar a dolor ou para capacitar o sujeito a carregar sua própria história? O verdadeiro trabalho do luto não é superar, mas integrar. Não é esquecer, mas aprender a lembrar sem se despedaçar.
A cura, quando falamos de luto, talvez seja mais sobre ressignificação do que sobre eliminação de sintomas. É sobre encontrar um lugar para a saudade que não impeça o novo de acontecer. É a coragem de continuar existindo quando fazer sentido parece impossível.
A psicologia não deveria oferecer prazos ou roteiros, mas sim acompanhar cada travessia em seu tempo único. Pois o que está em jogo não é cumprir etapas, mas revisitar memórias, ressignificar existências e – principalmente – aprender a viver com o que ficou para trás e com o que ainda pode vir.



