Por Laura Porto
Há temas sobre os quais acreditamos saber o suficiente.
Ouvimos falar, lemos manchetes, vemos números, repetimos conceitos.
A sociedade, afinal, nos acostumou a transformar tragédias humanas em relatórios, índices, diagnósticos e estatísticas.
Mas existe uma diferença brutal entre conhecer um problema e ser atravessado por ele.
Há realidades que só se tornam verdadeiras quando deixam de ser abstração e passam a ocupar o espaço da experiência.
Quando deixam de ser assunto e se tornam presença.
Quando deixam de ser dado e se transformam em rosto, silêncio, memória e consequência.
Algumas noites têm esse poder.
Elas não apenas acontecem elas deslocam.
Alteram o eixo interno com o qual observamos a vida, os outros e, sobretudo, as dores que insistimos em manter à distância.
Foi assim que compreendi, de forma mais profunda, a devastação que o álcool pode provocar.
Não falo apenas do vício enquanto definição clínica, nem da dependência como categoria médica ou social.
Falo daquilo que existe para além dos nomes técnicos.
Falo da erosão silenciosa da dignidade.
Da deterioração afetiva.
Do cansaço de quem ama.
Da vergonha que se instala nos lares.
Do medo que se repete em rotinas aparentemente comuns.
Da lenta destruição que, quase sempre, não atinge apenas um indivíduo, mas todo o ecossistema emocional que o cerca.
O álcool, quando atravessa o limite do uso e se instala como dependência, deixa de ser hábito.
Torna-se ausência.
Ausência de lucidez, de presença, de vínculo, de equilíbrio.
E, muitas vezes, ausência de si.
Talvez um dos maiores enganos do nosso tempo seja imaginar que a informação, por si só, produz consciência.
Não produz.
Saber que algo existe não significa compreendê-lo.
Ver números não significa sentir sua dimensão.
Ler estatísticas não revela a anatomia da dor.
Os números não mostram o constrangimento de um filho.
Não registram o esgotamento emocional de uma família.
Não traduzem a exaustão de quem já não sabe mais se insiste, se acolhe, se recua ou se sobrevive.
As estatísticas não contam o que se perde antes mesmo de qualquer fim visível.
E talvez seja justamente por isso que tantas dores permanecem banalizadas:
porque aquilo que não nos atravessa, facilmente se torna discurso.
No entanto, quando a dor ganha rosto, voz e história, ela deixa de caber em simplificações.
Ela nos obriga a abandonar o conforto do julgamento fácil.
Ela rompe a ilusão de que certos colapsos pertencem apenas à vida dos outros.
O que mais impressiona, contudo, não é apenas a devastação.
É a possibilidade de reconstrução.
Porque, em meio à ruína, existe algo profundamente comovente na escolha de permanecer.
Na decisão diária de resistir.
Na disciplina íntima de não repetir o gesto que conduz ao abismo.
Há batalhas que não se vencem uma única vez.
Vencem-se todos os dias.
Às vezes, de manhã.
Às vezes, no silêncio de uma tarde comum.
Às vezes, em um minuto invisível que ninguém aplaude.
E talvez a coragem mais autêntica não esteja nos grandes feitos que o mundo celebra, mas nos pequenos atos de sobrevivência que quase ninguém vê.
Escolher não se perder novamente é um desses atos.
É um gesto silencioso, mas imenso.
É uma forma radical de amor-próprio.
É a recusa íntima de continuar oferecendo a própria vida ao que a destrói.
Há uma dignidade profunda em quem recomeça.
Em quem cai e ainda assim decide não fazer da queda um destino.
Em quem compreende que, para algumas pessoas, viver não é apenas existir — é escolher, todos os dias, não desistir de si.
Talvez seja esse o verdadeiro aprendizado que certas experiências nos oferecem:
não apenas enxergar a gravidade da dor, mas reconhecer a grandeza da resistência.
Depois de certos encontros, não saímos iguais.
Saímos com menos arrogância diante do sofrimento alheio.
Com menos pressa para interpretar.
Com menos superficialidade para opinar.
Com mais silêncio.
Com mais reverência.
Com mais humanidade.
Porque há dores que, quando finalmente deixam de ser estatística, tornam-se espelho.
E diante delas, já não é mais possível olhar o mundo com a mesma inocência.
Há uma grandeza imensa em quem decide não ceder ao primeiro passo da queda.
Em quem compreende que certos abismos começam em pequenos gestos.
Em quem transforma a renúncia em sobrevivência.
Em quem faz da disciplina uma forma silenciosa de amor-próprio.
Aqui deixo minha admiração, respeito a todos que lutam por ficarem sóbrios.
Laura Porto
Escritora, Poeta e Neuromentora



