Por Carla Perin
@cacaperin
Você já se perguntou por que ama seu animal exatamente da maneira como ama? Há quem não consiga vê-lo sozinho por algumas horas. Quem ofereça tudo antes mesmo que ele peça. Quem tenha enorme dificuldade em colocar limites. Quem se angustie ao imaginar que o animal possa sentir medo, rejeição ou abandono. À primeira vista, estamos falando apenas do amor por um pet. Mas, pelo olhar sistêmico, podemos fazer outra pergunta: Será que a maneira como cuidamos também carrega um pouco da maneira como aprendemos a amar? Nossos primeiros vínculos acontecem na infância. É dentro da família que começamos a aprender, cada um à sua maneira, o que significa pertencer, receber atenção, enfrentar ausências, lidar com limites, separações, segurança e afeto. Essas experiências não determinam quem seremos, mas podem deixar marcas na forma como construímos vínculos ao longo da vida. E os animais também entram nesse campo afetivo. Uma pessoa que conheceu profundamente a sensação de solidão, por exemplo, pode tornar-se especialmente sensível à possibilidade de deixar seu cachorro sozinho. Quem precisou lutar muito para sentir-se pertencente pode experimentar na relação com um animal uma forma muito intensa de pertencimento. E alguém que recebeu pouco cuidado pode encontrar enorme prazer em finalmente poder oferecer a outro aquilo que um dia lhe fez falta. Não significa que toda pessoa extremamente dedicada ao seu animal tenha vivido uma infância difícil. Mas algumas vezes o vínculo com nossos animais toca lugares antigos da nossa história. E é aí que a Medicina Veterinária com um olhar sistêmico amplia a pergunta. Em vez de observar apenas “o que o tutor faz pelo animal?”, podemos também nos perguntar: Porque existe uma diferença entre cuidar e precisar impedir que o outro experimente qualquer desconforto. Entre amar e ter medo constante de perder. Entre oferecer proteção e não conseguir permitir autonomia. Nenhuma dessas perguntas pretende diminuir o amor. Muito pelo contrário. Talvez conhecer aquilo que existe por trás da nossa maneira de amar seja justamente uma forma de tornar o vínculo mais consciente. Às vezes acreditamos que estamos apenas contando a história do nosso animal. Mas, silenciosamente, a maneira como o amamos também pode contar um pedaço da nossa própria história. E talvez seja por isso que alguns animais ocupem lugares tão profundos dentro de nós. Eles chegam à nossa vida no presente.
Mas certos vínculos encontram partes nossas que começaram a existir muito antes deles.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



