Por Ramon Henrique
Quando a gente fala de representatividade LGBT na TV, cinema e propaganda, parece que o mundo só tem homem gay, ele tá na novela das 9 como melhor amigo, está na série da Netflix como protagonista sofredor.
Está no comercial de perfume beijando outro homem e a mulher lésbica? Cadê? ela tá sumida. ou pior: quando aparece, aparece errada.
O apagamento lésbico não é falta de lésbica no mundo real, pelo contrário.
É rua cheia, é casal de mãos dadas, é família com duas mães levando filho pra escola, o apagamento é na tela, é a decisão de não contar essa história, ou de contar de um jeito que não machuca o olhar masculino.
Pensa comigo. Quantos filmes nacionais você lembra com casal gay masculino como centro? “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, “Tatuagem”, “Meu Amigo Claudia”.
Agora tenta lembrar de filme nacional com duas mulheres como protagonistas e que não termine em tragédia,”Como Esquecer” quase chegou lá, mas virou dor. “Bixa Travesty” é sobre trans. “Paraíso Perdido” tem sapatão, mas é coadjuvante.
Na TV aberta é pior, novela coloca duas mulheres pra se beijar no fim pra dar ibope, depois desfaz tudo, ou transforma uma delas em “confusa” e devolve pro namorado.
É como se amar mulher fosse fase, e o beijo?,o beijo lésbico na TV quase sempre é pra câmera do homem, é cena curta, estética, sem contexto, não é sobre relação. É sobre fetiche.
Por que isso acontece? porque contar história de homem gay ainda cabe no roteiro do mundo.
O homem continua sendo o centro, mesmo sendo gay, já a mulher lésbica tira o homem do centro duas vezes.
Primeiro porque ela é mulher, segundo porque ela não quer ele, e produto cultural feito pra massa ainda é feito pensando no homem hétero como público principal.
O resultado disso é cruel, a menina lésbica cresce sem espelho,ela não vê futuro, não vê casamento, não vê briga boba, não vê sogra, não vê vida comum.
Vê morte, traição ou piada, e quando não vê nada, ela acha que o problema é ela.
A internet bagunçou um pouco isso, no TikTok e no Instagram tem sapatão contando rotina, tem quadrinista brasileira lançando HQ, tem canal no YouTube de casal lésbico mostrando compra de mercado, é pouco, é independente, mas é real.
Representar não é dar beijo, é dar vida, é mostrar a sapatão caminhoneira, a sapatão patricinha, a sapatão preta, a sapatão velha, é mostrar que tem comédia romântica lésbica, tem filme de terror com casal lésbico, tem novela com duas mães.
Enquanto a mídia achar que gay é sinônimo de homem, metade da comunidade vai continuar invisível, e invisibilidade mata, mata autoestima, mata sonho, mata gente nova que não se vê em lugar nenhum.
Porque sapatão também ama, também erra, também ri. E também merece aparecer. Inteira. Sem pedir licença.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



