Há um tipo de cansaço que não se resolve com descanso.
Não cede ao sono, não se dissipa em finais de semana, não se cura com pausas estratégicas ou promessas de autocuidado.
É um cansaço mais profundo.
Mais silencioso.
Mais perigoso.
Não é o corpo que está exausto é a identidade.
É o peso de sustentar, todos os dias, uma versão de si mesmo que não nasceu de dentro, mas foi moldada de fora para dentro. Uma construção paciente, quase imperceptível, feita de expectativas alheias, de olhares que cobram, de afetos condicionados.
Cansa fingir leveza quando tudo pesa.
Cansa sustentar sorrisos que não encontram eco na alma.
Cansa corresponder a uma narrativa que nunca foi, de fato, sua.
E, ainda assim, seguimos.
Seguimos porque, em algum ponto da trajetória, aprendemos que ser aceito exigia adaptação. Que ser amado implicava concessão. Que pertencer era, muitas vezes, sinônimo de caber ainda que isso significasse se reduzir.
Mas há um preço.
E ele chega.
Chega no esgotamento que não tem nome.
Na irritação sem causa aparente.
Na sensação persistente de estar deslocado da própria vida.
Porque pertencimento que exige o abandono de si não é pertencimento.
É negociação.
É sobrevivência emocional.
É, no limite, uma forma sofisticada de afastamento de si mesmo.
E tudo o que é sustentado à força, cedo ou tarde, rompe.
Rompe no corpo, na mente, nas relações.
Rompe naquilo que já não consegue mais ser silenciado.
Talvez, então, seja preciso revisitar o cansaço não como fraqueza, mas como linguagem.
Não como falha, mas como sinal.
Um aviso íntimo de que já não é mais possível continuar sustentando o que nunca foi seu.
Há, nesse ponto, uma escolha difícil e profundamente libertadora:
parar de sustentar expectativas…
e começar, enfim, a sustentar a si mesmo.
E isso, quase sempre, implica perda.
Perda de personagens.
De validações.
De pertencimentos frágeis.
Mas, em troca, há algo raro e inegociável:
a possibilidade de existir sem esforço.
Laura Porto
Escritora, Poeta e Neuromentora



