Pelo Psicanalista Jackson Shella
@Psicanalista_Jackson_Shella
@psicanaliseativainpc
Às vezes, a criança que fomos continua esperando, em silêncio, que alguém finalmente diga: “Agora você pode ficar. Eu não vou embora”.
É por isso que o Dia das Crianças pode despertar sentimentos tão diferentes. Enquanto algumas pessoas lembram de brincadeiras, colo e liberdade, outras encontram nessa data uma espécie de janela para aquilo que faltou: atenção, proteção, reconhecimento ou simplesmente a sensação de ser importante para alguém.
Eu penso que muitas dores adultas começam em cenas aparentemente pequenas.
Uma criança percebe que precisa tirar boas notas para receber elogios. Aprende a não contrariar para evitar brigas. Observa o humor dos adultos antes de fazer um pedido. Sente que, quando chora, incomoda. Ou entende, cedo demais, que precisa cuidar de todos para merecer amor.
Ela não tem recursos para compreender o que está acontecendo. Então, faz o que pode: adapta-se. Torna-se obediente, silenciosa, prestativa, engraçada ou incansavelmente boa. Cria maneiras de permanecer próxima daqueles de quem depende.
Anos mais tarde, essa criança cresce. Pode se tornar o adulto que aceita migalhas de atenção, que pede desculpas por existir, que se angustia diante de qualquer afastamento ou que acredita precisar agradar o tempo todo para não ser abandonado.
Talvez diga: “Eu sei que essa relação me faz mal, mas não consigo sair”. Ou permaneça esperando uma mensagem, interpretando cada silêncio, tentando descobrir o que fez de errado. Às vezes, chama isso de amor. Mas, por trás da necessidade urgente de ser escolhido, pode existir uma antiga tentativa de finalmente sentir-se seguro.
É nesse ponto que o sintoma começa a contar uma história.
Como escrevi no título do meu livro: “Por trás de um sintoma, pode existir uma história que ainda não conseguiu ser contada.” A dependência emocional não aparece do nada. Ela pode ser o modo encontrado para pedir cuidado, pertencimento e confirmação. Não como uma fraqueza moral, mas como uma resposta construída ao longo da vida.
Isso não significa culpar os pais, condenar a infância ou transformar o passado em uma sentença. Significa olhar para a própria história com mais honestidade e menos crueldade. Muitas pessoas fizeram o que conseguiram com os recursos que tinham. E nós também aprendemos a sobreviver como foi possível.
A virada acontece quando percebo que compreender minha origem não significa continuar obedecendo a ela.
Eu posso reconhecer a criança que precisou agradar sem entregar a ela o comando de todos os meus relacionamentos. Posso entender por que temo a rejeição e, ainda assim, aprender a não permanecer onde sou desrespeitado. Posso desejar amor sem transformar a presença do outro na prova de que tenho valor.
Autonomia afetiva não é deixar de precisar de ninguém. É poder estar com alguém sem desaparecer de mim mesmo. É conseguir dizer “eu gosto de você”, mas também “isso não me faz bem”. É sustentar a própria verdade mesmo quando existe o medo de perder.
Neste Dia das Crianças, talvez o convite seja olhar para aquela criança que fomos não apenas com saudade, mas com escuta. Que lembrança ainda pede espaço? Que necessidade continua aparecendo nos seus vínculos? Qual parte da sua história ficou esperando uma voz adulta para ser compreendida?
Talvez o passado não possa ser refeito. Mas pode ser narrado de outro modo.
E quando uma história finalmente encontra palavras, ela deixa de governar a nossa vida apenas pelo silêncio.
Qual padrão afetivo você percebe que nasceu na sua infância?
Idealizador da Ashells Psicanálise Clínica especialista em Dependência Emocional
Vice-presidente do Instituto Nacional de Psicanálise Clínica
Whatsapp: (41) 99182-9353



