Por Antonio Junior
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RESUMO
Este artigo analisa a relação entre experiências de racismo, estresse e processos envolvidos na aprendizagem. A discussão parte da compreensão de que atenção, memória de trabalho, controle inibitório e autorregulação são influenciados pelas experiências sociais. Sem reduzir fenômenos complexos a explicações neurológicas simples, o texto discute como ambientes marcados por discriminação podem comprometer a disponibilidade cognitiva e emocional para aprender. Defende-se a construção de ambientes escolares seguros, acolhedores e antirracistas.
Palavras-chave: Estresse; Racismo; Aprendizagem; Funções executivas; Neuropsicopedagogia.
Introdução
O cérebro humano aprende em interação constante com o ambiente. Atenção, memória, planejamento, controle inibitório e autorregulação são influenciados pelas experiências vividas, pelas relações sociais e pelo estado emocional. Por isso, discutir aprendizagem exige considerar também as condições de segurança ou ameaça presentes no cotidiano.
Estresse e processos cognitivos
Experiências repetidas de discriminação podem produzir estresse e manter o indivíduo em estado de alerta. Pesquisas discutidas pelo Conselho Federal de Psicologia apontam que experiências consistentes de racismo podem estar associadas a respostas que interferem em funções executivas, atenção seletiva, memória de trabalho e controle inibitório. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).
É importante evitar simplificações. Não se trata de afirmar que uma experiência de racismo produz automaticamente uma determinada alteração neurológica. O desenvolvimento é complexo e depende da intensidade, duração, frequência e significado das experiências, além dos recursos de proteção disponíveis.
Racismo e experiência escolar
No caso do racismo, essa questão precisa ser analisada com atenção. O estudante negro pode encontrar na escola situações de invisibilidade, estereotipação, piadas, exclusão ou expectativas reduzidas. Mesmo quando não há uma agressão aberta, a percepção de que seu pertencimento está sendo questionado pode produzir desgaste emocional.
Produções recentes sobre a perspectiva neuropsicológica das desigualdades raciais destacam a necessidade de compreender saúde mental em contexto multidimensional, articulando fatores sociais, psicológicos e biológicos. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).
Ambientes de proteção
Ambientes seguros podem atuar como importantes condições para o desenvolvimento. Relações de confiança, acolhimento, reconhecimento e pertencimento favorecem a participação e permitem que o estudante se envolva com o processo de aprendizagem sem precisar concentrar sua energia na defesa contra ameaças sociais.
A educação antirracista também possui dimensão pedagógica. A legislação brasileira estabelece a presença da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo e, atualmente, a LDB determina a consideração da diversidade étnico-racial. (BRASIL, 2003; BRASIL, 1996).
Considerações finais
O cérebro que aprende é o mesmo cérebro que responde às experiências sociais. Não existem dois estudantes separados: um cognitivo e outro emocional. Há uma pessoa integral, que aprende, sente, interpreta relações e constrói sua identidade simultaneamente. Proteger o ambiente de aprendizagem significa garantir que o desafio pedagógico não seja acompanhado por uma ameaça social.
No próximo encontro falaremos: Expectativa docente e aprendizagem: quando o olhar do professor interfere no desenvolvimento do estudante
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: Presidência da República, 1996.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996 para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Brasília, DF: Presidência da República, 2003.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394/1996, modificada pela Lei nº 10.639/2003, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Brasília, DF: Presidência da República, 2008.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Interseccionalidades das desigualdades raciais e socioeconômicas na perspectiva neuropsicológica: entrevista com o Grupo de Trabalho de Neuropsicologia do Conselho Federal de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 2025.
LISBOA, Cristiane Almeida; SOUZA JÚNIOR, Antonio Cordeiro de. A mulher negra como protagonista na interseção entre políticas públicas e neuropsicopedagogia: caminhos para a equidade e inclusão. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, São Paulo, v. 12, n. 1, 2026.
SANTOS, Bianca Cristina Garcia. O impacto do racismo no desenvolvimento da aprendizagem: o papel do/a psicopedagogo/a institucional. 2025. Monografia de Especialização – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2025.
Antonio Junior é Mestre e Doutorando em Educação, neuropsicopedagogo, especialista em ABA para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), contador e escritor.



