Por Dayse Batista
O que as chamas revelam sobre um incêndio criminoso
Quando os bombeiros apagam as últimas chamas, para muita gente o incêndio terminou. Para a investigação, é justamente ali que outra história começa.
Sob a fuligem, nos materiais carbonizados, nos objetos deformados e nas estruturas parcialmente destruídas, permanecem vestígios capazes de responder perguntas fundamentais: onde o incêndio começou? O que iniciou o fogo? Foi acidental ou houve ação humana intencional?
Investigar um incêndio não significa procurar “algo queimado”. Significa reconstruir a dinâmica do fogo, compreender os materiais presentes no ambiente e analisar como as chamas se desenvolveram e se propagaram.Como quem lê, nas cinzas, a última página de um enredo que ninguém contou por completo.
Para existir fogo, é preciso ter um encontro entre calor,combustível e comburente (Ar)
A primeira coisa que precisamos compreender é que combustível não significa apenas gasolina.
Combustível é todo material capaz de participar de uma combustão, e pode estar no estado sólido, líquido ou gasoso.
Nos combustíveis sólidos: madeira, papel, tecidos, plásticos, móveis; o calor provoca decomposição térmica do material, liberando gases e vapores que efetivamente alimentam a chama.( muita fumaça)
Nos combustíveis líquidos: como gasolina, diesel e certos solventes, há um detalhe essencial: geralmente não é a massa líquida que queima diretamente, mas os vapores inflamáveis liberados acima de sua superfície, que, ao se misturarem ao ar em proporções adequadas vão entrar em ignição.( chamas altas)
Já nos combustíveis gasosos, como GLP e gás natural, o combustível já se encontra no estado gasoso e pode formar misturas inflamáveis com o ar. Dependendo da concentração, do confinamento e da presença de uma fonte de ignição, o cenário pode evoluir para incêndio e até para fenômenos explosivos.(dissipação de materiais com rapidez)
Essa diferença importa porque cada tipo de combustível influencia de forma distinta a ignição, o desenvolvimento, a propagação e os vestígios deixados pelo fogo.
E o chamado “líquido acelerante”?
Aqui mora um erro comum, inclusive entre profissionais menos experientes.
Encontrar gasolina, tinner ou outro líquido inflamável não significa, por si só, que alguém provocou o incêndio.
Popularmente, chama-se de acelerante uma substância usada para facilitar a ignição ou favorecer a propagação do fogo. Mas na perícia, a interpretação exige muito mais rigor.
Por isso, o perito não procura apenas uma substância. Ele procura coerência.
Quando nasce a suspeita? Alguns achados justificam investigação mais aprofundada: áreas de origem aparentemente independentes; recipientes incompatíveis com o ambiente; resíduos de líquidos inflamáveis em locais inesperados; sinais de manipulação de sistemas elétricos; imagens de câmeras; comportamento e relatos das pessoas envolvidas; e contradições entre a versão apresentada e o que os vestígios demonstram.Mas existe uma regra essencial: indício não é conclusão.
Nem mesmo a existência de mais de uma região intensamente queimada permite, isoladamente, afirmar que houve múltiplos focos intencionais. Ventilação, transferência de calor, colapso de materiais e outros fenômenos naturais do próprio incêndio podem produzir padrões complexos e enganosos.
O laboratório também fala
Quando há suspeita de líquidos inflamáveis, materiais e resíduos podem ser coletados de forma tecnicamente adequada e encaminhados para análise laboratorial, que busca resíduos químicos compatíveis com determinados produtos.
Mas surge, de novo, uma distinção indispensável: detectar uma substância não é o mesmo que demonstrar quem a colocou ali, quando foi colocada ou com qual intenção. A química responde parte da pergunta; a reconstrução pericial responde o restante.
Existe uma “assinatura” do incêndio criminoso?
Não existe assinatura universal. Não há um desenho específico na parede, uma cor de chama, um vidro trincado ou uma área mais carbonizada que, isoladamente, autorize o investigador a declarar “foi criminoso”.
A conclusão nasce da convergência dos vestígios: estabelecer a área de origem, avaliar as possíveis fontes de ignição, identificar os combustíveis disponíveis, compreender a propagação e testar tecnicamente cada hipótese possível.Primeiro vêm os vestígios. Depois, as hipóteses. Só então, a conclusão.
Quando o fogo tenta esconder outro crime
Há situações em que o incêndio tem outra finalidade: destruir documentos, comprometer evidências, dificultar a identificação de uma vítima ou mascarar um fato anterior.
Nesses casos, a investigação não pode se limitar a perguntar “por que pegou fogo?”. Talvez a pergunta mais importante seja: o que aconteceu naquele ambiente antes de o incêndio começar? É nesse ponto que a investigação de incêndio se encontra com as demais ciências forenses.
As cinzas não significam ausência de prova
O fogo transforma. Carboniza, fragmenta, derrete, deforma e pode destruir uma quantidade enorme de informação. Mas destruição não é o mesmo que ausência de vestígios.
Às vezes, o que parece apenas uma mancha escura no piso, a posição de um objeto, um componente elétrico, um fragmento preservado ou um resíduo bem coletado pode transformar por completo a interpretação do evento.Por isso, diante de um incêndio, talvez a pergunta certa não seja “o que o fogo destruiu?”, mas sim:
“O que ele não conseguiu esconder?”




Um conteudo de grande relevancia e de aprendizado muito bom