Quando a presença de um animal faz diferença?
O que o vínculo com um animal pode representar nos momentos difíceis da vida
*Por Carla Perin
@cacaperin
Setembro chega vestido de amarelo e nos convida a falar sobre saúde mental, sofrimento emocional e, principalmente, sobre a importância de não atravessarmos sozinhos os momentos difíceis da vida. E talvez exista uma presença que também mereça fazer parte dessa conversa. Aquela que não pergunta o que aconteceu. Não exige explicações. Não espera que você esteja bem para se aproximar. Apenas fica. Quem já atravessou um período de tristeza, solidão, luto ou grandes mudanças talvez saiba exatamente do que estou falando. Às vezes, em um dia em que não queremos conversar com ninguém, ainda levantamos porque existe um cachorro esperando para sair. Colocamos comida no potinho. Trocamos a água. Abrimos a porta. Sentamos no sofá e, alguns minutos depois, sentimos uma cabeça encostando na nossa perna. A relação entre seres humanos e animais vem sendo cada vez mais estudada pela ciência. Sabemos que uma convivência positiva com animais pode estar associada a companhia, interação social, atividade física, rotina e sensação de apoio emocional. Mas é importante não romantizar. E nem todas as relações entre pessoas e animais produzem os mesmos efeitos. Ainda assim, para muitas pessoas, cuidar de um animal cria algo muito importante nos períodos difíceis. Nós, humanos, frequentemente aprendemos a esconder nossas fragilidades. Respondemos “está tudo bem” quando não está. Continuamos trabalhando. Sorrimos. Cumprimos compromissos. Tentamos não preocupar ninguém. Com os animais, muitas dessas defesas perdem a função. Podemos simplesmente sentar em silêncio. Na visão sistêmica, pertencimento é uma necessidade fundamental. Todos precisamos experimentar, de alguma maneira, que fazemos parte de algo. Uma família. Um grupo. Uma história. Uma relação. E os animais passaram a ocupar um lugar muito particular nas famílias contemporâneas. Hoje falamos em famílias multiespécie justamente porque, em muitos lares,
eles não estão apenas dentro da casa: fazem parte da vida afetiva daquela família. Talvez por isso a ausência deles doa tanto. E talvez por isso a presença deles possa significar tanto nos dias difíceis. Existe uma troca silenciosa: Mas existe também um cuidado importante nessa relação. Nosso animal pode caminhar conosco durante uma fase difícil, oferecer companhia e fazer parte da nossa rede afetiva. O que ele não deve receber é a responsabilidade de nos salvar. Essa responsabilidade é grande demais para qualquer vínculo — humano ou animal. Pedir ajuda continua sendo um gesto necessário quando o sofrimento ultrapassa aquilo que conseguimos sustentar sozinhos. Nem sempre conseguimos perceber quando alguém está lutando silenciosamente para continuar. Às vezes essa pessoa está perto de nós. Trabalha conosco. Mora conosco. Sorri para nós. Por isso, setembro Amarelo não precisa ser apenas um mês para falar sobre sofrimento. Pode ser também um convite para olharmos uns para os outros com um pouco mais de presença. Curiosamente, nossos animais fazem isso conosco todos os dias. Eles nos chamam para o agora. Para o passeio. Para o toque. Para a rotina. Para a vida acontecendo exatamente neste instante. E talvez seja essa a mensagem que a Alma Animal queira deixar na abertura deste setembro Amarelo: Nesses momentos, vínculos importam. Presença importa. Pedir ajuda importa. E, algumas vezes, entre os muitos fios que ainda nos conectam à vida, existem quatro patas caminhando silenciosamente ao nosso lado.
*Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



