Por Alexandre Angélico
Matemático e Economista
O Brasil entrou em 2026 com um problema que não é pequeno: todos os setores estão endividados ao mesmo tempo: governo, famílias e empresas. Isso cria um efeito dominó que trava consumo, investimento e crescimento. Segundo o Banco Central, a dívida pública chegou a 82% do PIB, o maior nível desde 2021, pressionando juros e reduzindo espaço para investimentos públicos. Ou seja, quanto maior a dívida, mais o governo gasta com juros e menos sobra para saúde, educação, infraestrutura e investimentos que impulsionam o crescimento.
Quando o governo gasta mais do que consegue arrecadar, ele precisa emitir mais títulos de dívida para se financiar. Só que, à medida em que cresce a desconfiança de que o governo poderá não arcar com seus compromissos, investidores exigem juros mais altos. Isso acarreta crédito mais caro, financiamentos mais pesados e menos dinheiro disponível para o setor privado. Como disse o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, o governo vira um “aspirador de recursos”, competindo com empresas e famílias pelo mesmo dinheiro.
Do lado das famílias, o cenário também preocupa. Em julho, 82% dos lares brasileiros tinham dívidas, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). E, quando consideramos crédito livre, a modalidade de empréstimos mais comum, na qual os bancos alteram livremente as suas taxas, a inadimplência chegou a 7,8%, recorde desde 2011. Isso significa que boa parte da renda está comprometida com parcelas antigas, deixando pouco espaço para o consumo. Quando o brasileiro compra menos, o varejo sente imediatamente e o PIB desacelera.
Mesmo com o mercado de trabalho aquecido, o orçamento das famílias está mais rígido. A inflação de serviços continua pressionando o custo de vida, e muitas dívidas têm juros maiores do que a própria Selic. O resultado é um consumidor cauteloso, que evita compras grandes e prioriza o básico. Isso afeta setores como comércio, turismo, alimentação fora de casa e serviços não essenciais.
As empresas também estão no limite. Em junho, 9,1 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, somando R$ 232,9 bilhões em dívidas atrasadas, segundo a Serasa Experian. Alguns dos grandes grupos empresariais conhecidos por todos no país vêm recorrendo à recuperação judicial, e o estoque de dívidas de curto prazo das companhias abertas cresceu R$ 50 bilhões em apenas seis meses. Com crédito caro e vendas fracas, muitos negócios adiam investimentos e reduzem operações.
Esse aperto simultâneo cria um círculo vicioso: famílias compram menos, empresas faturam menos, governo arrecada menos e todos se endividam mais. Setores como varejo, construção civil, indústria e serviços sofrem diretamente. Já o agronegócio, apesar de ter crescido no último trimestre, enfrenta riscos climáticos e custos elevados, o que pode limitar sua capacidade de sustentar o PIB sozinho. Por outro lado, alguns setores resistem melhor. Alimentação essencial, saúde, serviços de manutenção, tecnologia de serviços e turismo local, mesmo com uma expectativa de redução no faturamento, mantêm demanda mais estável. São áreas de baixo custo fixo, alta rotatividade e consumo recorrente, que são características que protegem em momentos de aperto financeiro.
Para o consumidor, o cenário significa crédito mais caro, preços pressionados e necessidade de planejamento. Para o empreendedor, o cenário exige eficiência: reduzir custos, negociar prazos, evitar dívidas caras e focar em setores resilientes devem ser prioridades. Já o governo, necessita de atuar com responsabilidade fiscal para reduzir juros e liberar espaço no orçamento para investimentos.
Em resumo, o Brasil não vive um colapso, mas enfrenta um aperto sistêmico. A saída passa por três frentes: responsabilidade fiscal para reduzir juros, renegociação de dívidas para aliviar famílias e empresas, e políticas governamentais que estimulem produtividade com controle de recursos. Enquanto isso não acontece, o melhor caminho para o cidadão é planejamento; e para o empreendedor, eficiência. Informação e organização continuam sendo os melhores aliados em tempos de dívida alta.
Alexandre Angélico
@alexandreangelico
Alexandre Angélico é Matemático e Economista formado pela USP e Mestre em Economia dos Mercados pelo Mackenzie.



