Por Kamila Gimenes
@dra.kamilagimenes
Nos dias atuais, vivemos um paradoxo curioso: muitos falam sobre saúde, mas poucos, realmente, compreendem sobre ela.
As redes sociais transformaram o cuidado com o corpo em vitrine. Rotinas de treino extenuantes, desafios de alta intensidade, jejuns prolongados associados a exercícios vigorosos e a estética do sofrimento, passaram a ser vendidos como símbolos de disciplina e sucesso. A mensagem implícita é sedutora: quanto mais extremo, melhor. Quanto mais suor, mais resultado. Quanto mais dor, mais mérito.
Mas o organismo humano não funciona sob essa lógica simplista.
Do ponto de vista da genética e do metabolismo, existe uma variabilidade enorme na forma como cada indivíduo responde ao exercício físico. Polimorfismos genéticos influenciam desde a capacidade aeróbica até a recuperação muscular, passando pela resposta inflamatória e pela eficiência energética celular. Em termos práticos, isso significa que o treino que potencializa um indivíduo pode esgotar outro.
Há pessoas com maior densidade mitocondrial, melhor capacidade oxidativa e uma resposta hormonal mais adaptativa ao estresse físico. Essas conseguem tolerar volumes maiores de treino com menor custo fisiológico. Outras, porém, apresentam maior suscetibilidade ao acúmulo de fadiga, maior resposta inflamatória e recuperação mais lenta. Quando essas diferenças são ignoradas, o resultado deixa de ser evolução e passa a ser desgaste.
E é exatamente isso que observamos com frequência crescente.
O excesso de exercício, especialmente quando dissociado de recuperação adequada, configura um estado de estresse fisiológico crônico. O aumento persistente de cortisol, a sobrecarga do sistema nervoso autônomo e a inflamação de baixo grau criam um ambiente metabólico desfavorável. Em vez de melhorar a composição corporal, o organismo entra em modo de preservação.
Paradoxalmente, indivíduos submetidos a treinos intensos e frequentes sem o devido descanso podem apresentar piora da sensibilidade à insulina, maior dificuldade na perda de gordura e até redução de massa magra. Em condições ideais, o exercício melhora a sensibilidade à insulina, mas quando você empilha alta intensidade, alto volume e uma recuperação insuficiente, o corpo sai de um estado adaptativo e entra em um estado de estresse crônico.
Ou seja: o organismo interpreta aquele cenário como ameaça, não como estímulo saudável. A performance permanece estagnada, o humor oscila, o sono perde qualidade.
No caso das mulheres, os efeitos podem ser ainda mais acentuados. A combinação de alto volume de treino com baixa disponibilidade energética impacta diretamente o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Irregularidades menstruais, amenorreia e alterações hormonais passam a ser comuns e são sinais claros de que o organismo está priorizando sobrevivência e não performance.
Existe hoje uma cultura que normaliza o cansaço extremo, a dor constante e a exaustão como parte obrigatória de um estilo de vida saudável e isso não é apenas um equívoco, é um risco.
Parte desse cenário se explica pela proliferação de “especialistas” nas redes sociais. Nunca foi tão fácil conquistar autoridade aparente. Um físico bem trabalhado, vídeos dinâmicos e frases de impacto bastam para construir uma audiência. No entanto, estética não é sinônimo de conhecimento. E experiência pessoal, por mais válida que seja, não substitui formação técnica.
Prescrição de exercício é ciência. Envolve compreensão de fisiologia, bioquímica, biomecânica, individualidade biológica e contexto clínico. Não pode ser reduzida a fórmulas prontas replicáveis em massa.
Quando recomendações generalistas são aplicadas indiscriminadamente, o que se perde é justamente o princípio mais básico da boa prática em saúde: a individualização.
O corpo humano responde a estímulos, mas responde melhor quando esses estímulos são adequados. Existe uma dose ideal entre estímulo e recuperação. Abaixo dela, não há progresso. Acima dela, há regressão.
E esse limite não é determinado por tendências de internet.
A boa prática de exercícios físicos sempre valorizou consistência, progressão gradual e respeito aos sinais do corpo. Não há atalhos fisiológicos. O que existe é adaptação, e adaptação exige tempo.
Treinar bem continua sendo mais eficaz do que treinar muito. Recuperar-se adequadamente continua sendo parte essencial do processo. Dormir bem, alimentar-se de forma coerente e respeitar períodos de descanso não são sinais de fraqueza, são estratégias inteligentes.
Talvez o maior desafio atual não seja a falta de informação, mas o excesso de ruído. Em meio a tantas vozes, muitas vezes perde-se o essencial.
Saúde não precisa ser extrema para ser eficaz. Não precisa ser exibida para ser validada. E, definitivamente, não pode ser conduzida com base em modismos.
No fim, o corpo humano segue operando sob as mesmas leis: estímulo em dose certa e repouso. A diferença é que, agora, muita gente resolveu ignorá-las em busca de resultados nem sempre melhores, mas sempre “instagramáveis”. E a fisiologia segue seu curso, ajustando, compensando e, inevitavelmente, cobrando o preço dos excessos.
Kamila Gimenes é médica, graduada pela Universidade de Caxias do Sul, com pós-graduação em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), pós-graduanda em Medicina do Exercícío e do Esporte. Possui formação complementar em doenças relacionadas ao envelhecimento. Atual com enfoque em medicina metabólica, com capacitação em metabolômica e bioquímica clínica.
Clínica Integrare – Erechim/RS
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