Por Eneida Roberta Bonanza
Tem dias em que a saudade chega devagar.
Em silêncio.
E tem dias em que ela entra sem bater.
Desorganiza o peito, muda o humor, rouba a concentração e transforma coisas simples em um peso difícil de explicar.
O luto não acontece só no enterro.
Às vezes ele começa depois.
Quando as visitas vão embora.
Quando o telefone para de tocar.
Quando o mundo continua funcionando… mas a pessoa por dentro ainda não conseguiu voltar.
Existe uma parte muito solitária no luto que quase ninguém fala.
Porque todo mundo entende a perda no começo.
Mas poucas pessoas entendem a continuidade dela.
Depois de um tempo, esperam que você esteja melhor.
Mais forte.
Mais “normal”.
Só que algumas ausências não cabem dentro do calendário dos outros.
E talvez uma das coisas mais difíceis seja exatamente essa sensação estranha de perceber que a vida continua acontecendo enquanto uma parte sua ainda está tentando entender o que aconteceu.
O luto cansa.
Cansa emocionalmente.
Fisicamente.
Mentalmente.
Tem gente que perde o sono.
Tem gente que dorme demais.
Tem gente que perde a fome.
Tem gente que tenta preencher a dor comprando, trabalhando, se distraindo ou ficando forte o tempo inteiro para não desmontar.
Mas a verdade é que ninguém passa ileso pela perda daquilo que amou profundamente.
E isso não deveria ser motivo de vergonha.
A gente aprendeu a esconder tristeza.
A disfarçar dor.
A responder “está tudo bem” mesmo quando claramente não está.
Só que o corpo sempre percebe.
O corpo percebe o aperto na garganta.
O cansaço que aparece do nada.
A irritação.
O vazio.
A falta de vontade de conversar.
A sensação de estar presente sem realmente conseguir estar.
Perder alguém muda o ritmo da vida por dentro.
E cada pessoa atravessa isso de um jeito muito particular.
Tem quem chore todos os dias.
Tem quem não consiga chorar.
Tem quem precise falar.
Tem quem precise de silêncio.
Não existe uma maneira certa de viver o luto.
Existe apenas a maneira possível naquele momento.
E talvez o maior erro seja tentar acelerar um processo que precisa ser sentido.
Porque sentir dor não significa fraqueza.
Significa vínculo.
Só sofre quem amou.
Com o tempo, a dor muda de lugar.
Ela deixa de ocupar tudo.
A saudade continua existindo, mas já não impede a pessoa de respirar.
As lembranças começam a machucar menos e aquecer mais.
O nome da pessoa volta a ser falado sem que a voz falhe o tempo inteiro.
E isso não é esquecer.
É aprender a carregar amor sem carregar somente sofrimento.
Tem uma frase que eu ouvi uma vez e nunca esqueci:
“o luto é o preço emocional de ter vivido algo importante.”
E talvez seja isso.
Talvez a dor exista porque existiu amor.
Porque existiu presença.
Porque existiu significado.
Algumas pessoas passam pela nossa vida e deixam marcas tão profundas que continuam existindo em pequenos detalhes.
Num jeito de falar.
Numa música.
Num conselho.
Num hábito.
Num cheiro.
Num pedaço da nossa história.
A ausência dói…
mas o amor vivido também permanece.
E chega um momento em que a pessoa entende que seguir vivendo não é abandonar quem partiu.
É permitir que a vida continue florescendo apesar da saudade.
Porque o amor verdadeiro não termina na ausência.
Ele muda de forma.
Eneida Roberta Bonanza é fisioterapeuta, terapeuta integrativa, escritora internacional, palestrante e CEO da CHER – Clínica de Saúde Humanizada. Atua com abordagens integrativas voltadas à regulação emocional, saúde sistêmica e equilíbrio entre corpo e mente.



