Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Nestes últimos dias tenho prestado atenção nas redes sociais e o meu sentimento é que estamos crescendo os nossos níveis de intolerância. E a primeira pergunta que eu faço é: o que está por trás dela? Mas também: o que perdemos quando permitimos que ela conduza nossas decisões? E, afinal, quem ganha quando nós perdemos a capacidade de dialogar? Eu penso que essas sejam perguntas mais importantes do que descobrir quem está certo, quem está errado.
De verdade, eu não gosto de ver isso acontecendo.
Vivemos tempos em que discordar parece ter se transformado em uma ameaça. Uma opinião diferente pode ser suficiente para romper uma amizade, afastar familiares, destruir relações ou transformar desconhecidos em inimigos. Mas eu acredito que a intolerância não nasce apenas da diferença.
Sinto que ela costuma encontrar terreno fértil no medo, na insegurança, na necessidade de pertencimento, na dificuldade de lidar com a frustração e, principalmente, na certeza de que o outro não tem nada a nos ensinar. E quando acreditamos que já sabemos tudo, deixamos de escutar. E quando deixamos de escutar, começamos a enxergar o mundo através de uma lente cada vez mais estreita.
Parece que a intolerância nos dá uma sensação perigosa de certeza. E talvez seja esse um dos seus maiores atrativos
A complexidade incomoda. É muito mais confortável acreditar que existem bons e maus, certos e errados, nós e eles. A intolerância simplifica o mundo. Ela parece oferecer respostas rápidas para perguntas difíceis.
Se o outro é simplesmente “o problema”, não precisamos olhar para a nossa própria responsabilidade. Se quem pensa diferente é ignorante, não precisamos ouvir seus argumentos. Se o outro é nosso inimigo, não precisamos compreender sua história. E assim vamos construindo mais certezas que podem até nos dar segurança, mas diminuem nossa capacidade de pensar.
E a partir daí o que podemos estar perdendo?
A conversa. E talvez essa seja uma das maiores perdas do nosso tempo. Porque conversar não significa necessariamente concordar. Conversar significa permitir que duas pessoas diferentes permaneçam na mesma mesa.
Perdemos também a curiosidade. Aquela capacidade tão humana de perguntar: “Por que você pensa assim?”
Perdemos relacionamentos que poderiam ter sobrevivido à divergência.
Perdemos a oportunidade de rever nossas próprias convicções.
Perdemos nuances. E, quando perdemos as nuances, começamos a tomar decisões definitivas baseadas em sentimentos passageiros. Sobre pessoas e situações que vão passar.
Quantos casamentos terminam porque ninguém mais consegue ouvir? Quantas famílias se afastam por causa de diferenças que poderiam ser discutidas? Quantas amizades acabam porque uma divergência virou uma questão de identidade? Quantas vezes preferimos cortar alguém da nossa vida a enfrentar o desconforto de uma conversa difícil? E aqui é preciso dizer: existem sim situações em que se afastar é necessário.
Existem limites que precisam ser estabelecidos. Mas limite não é intolerância. Porque limite protege, enquanto a intolerância desumaniza.
E quem ganha com isso? Essa é a pergunta que no meu entendimento vale 1 milhão de dólares e a pergunta mais incômoda. Quando pessoas deixam de conversar, alguém ou alguma dinâmica pode se beneficiar. A divisão aumenta a atenção. A indignação mobiliza. O conflito cria pertencimento.
Grupos podem se fortalecer quando encontram um “inimigo” comum. E, em diferentes contextos — políticos, sociais, religiosos, culturais ou até familiares — existe uma lógica conhecida: quanto mais divididos estamos, mais difícil se torna construir algo juntos. Isso não significa imaginar uma grande conspiração por trás de toda divergência. Porém às vezes, a intolerância simplesmente nasce de nós mesmos.
Mas eu percebo que existem ambientes e interesses que podem explorar a polarização porque pessoas indignadas permanecem mais engajadas, mais reativas e menos dispostas a ouvir o outro lado. Por isso, uma pergunta simples pode ser poderosa:
“Quem se beneficia quando eu permaneço com raiva?”
Note que não precisamos aceitar uma resposta pronta. Precisamos apenas começar a fazer perguntas. Pois talvez a própria intolerância seja também uma fuga. Porque é difícil olhar para dentro. É mais fácil apontar o dedo. É mais fácil encontrar um culpado do que reconhecer nossa parcela de responsabilidade. É mais fácil dizer “eles são intolerantes” do que perguntar:
“Onde eu também estou sendo intolerante?”
E essa pergunta exige coragem. Porque pode revelar algo desconfortável: podemos defender liberdade e, ao mesmo tempo, querer silenciar quem pensa diferente. Podemos falar de respeito e responder com desprezo. Podemos pedir tolerância enquanto somos incapazes de tolerar a diferença. A consciência começa justamente quando conseguimos olhar para essa contradição.
Elevar a consciência não significa concordar com tudo
Significa conseguir permanecer inteiro diante da diferença.
Posso discordar de você sem desejar destruí-lo. Posso rejeitar uma ideia sem rejeitar sua humanidade. Posso estabelecer um limite sem transformar você em inimigo. Posso mudar de opinião sem sentir que fui derrotado.
E posso reconhecer:
“Talvez eu não esteja vendo tudo.”
Essa frase simples pode ser uma das maiores demonstrações de sabedoria. Porque quem eleva a consciência não precisa diminuir o outro para se sentir maior.
O preço mais amargo
A intolerância promete uma vitória imediata: a sensação de estar certo. De ter vencido. De ter colocado o outro no lugar dele. Mas a conta pode chegar depois. E sempre chega! Na solidão. No afastamento. No arrependimento. Na perda de relações que não precisavam necessariamente terminar. Na incapacidade de conversar com quem pensa diferente. E, talvez, na descoberta tardia de que passamos tanto tempo tentando vencer o outro que esquecemos de preservar aquilo que realmente importava.
Por isso, antes de reagirmos, talvez devêssemos perguntar: eu estou defendendo um valor ou apenas defendendo o meu ego? Estou estabelecendo um limite ou punindo alguém? Estou tomando uma decisão consciente ou apenas reagindo à minha raiva? E, principalmente: quem ganha quando eu perco a capacidade de dialogar?
Em tempos de intolerância, elevar a consciência não significa renunciar a convicções. Na minha forma de “enxergar a vida”, significa não permitir que nossas convicções nos roubem a humanidade. Porque talvez o verdadeiro poder não esteja em conseguir que todos pensem como nós. Talvez esteja em continuar sendo capaz de pensar quando todos ao nosso redor estão apenas reagindo.
E talvez essa seja a pergunta que devemos levar para casa: quanto estamos pagando pela intolerância — e quem está recebendo essa conta?
Bia Rossatti – Terapeuta Familiar
16 99777-2501



