Por Fabiana Ribeiro
@fabianaribeirodos805
A sociedade sempre valorizou a mulher pela sua capacidade de cuidar, produzir, conciliar tarefas e suportar adversidades. Desde a infância muitas são ensinadas a priorizar as necessidades alheias, a conter o choro, a evitar conflitos e a permanecer disponíveis, mesmo quando estão emocionalmente esgotadas.
Essa construção social contribui para a naturalização da sobrecarga, da desigualdade na distribuição do trabalho, do cuidado e do silenciamento emocional. Necessariamente não atinge todas as mulheres da mesma forma, no entanto, contribui para a exaustão e a possibilidade de adoecimento psíquico e emocional.
Fomos condicionadas a sorrir mesmo estando emocionalmente exaustas, silenciar nossas próprias necessidades em detrimento das necessidades alheias, de cuidar dos outros. Aprendemos a ser resistentes, diante de uma condição permanente de existência, receosas de pedir ajuda, de descansar ou de sentir dor, como se estas condições fossem sinônimos de fraqueza.
Quando a ansiedade, a tristeza persistente, o medo e a exaustão passam a ser considerados parte inevitável da rotina, o sofrimento pode deixar de ser reconhecido como algo que merece atenção. A mulher continua desempenhando suas funções, mas isso não significa necessariamente que esteja bem.
É importante compreender que o sofrimento psíquico não é uma experiência exclusivamente individual. As condições de trabalho, a violência, a insegurança econômica, as responsabilidades familiares, a ausência de apoio e as desigualdades sociais também participam da construção das experiências de saúde e adoecimento.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a influência dos determinantes sociais sobre a saúde. Portanto, falar de cuidado feminino exige ir além da recomendação individual de descansar ou administrar melhor o tempo. É preciso considerar as condições concretas que permitem — ou impedem — que uma mulher cuide de si.
A ciência contemporânea reconhece que os processos psicológicos e fisiológicos estão interligados. O estresse ativa mecanismos neuroendócrinos, incluindo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, e modifica a liberação de hormônios envolvidos na resposta do organismo às situações percebidas como ameaçadoras.
Quando a resposta ao estresse se mantém por períodos prolongados, podem ocorrer repercussões sobre o sono, a pressão arterial, o funcionamento metabólico, a regulação imunológica e a saúde mental. Ansiedade persistente, depressão e estresse crônico também podem comprometer a qualidade de vida e dificultar a procura por atendimento ou a continuidade de determinados cuidados de saúde.
Entretanto, é necessário distinguir a influência do sofrimento emocional sobre a saúde física da afirmação de que emoções específicas causam doenças específicas.
No caso do câncer de mama, as evidências científicas disponíveis não demonstram uma relação causal direta entre estresse psicológico, emoções reprimidas ou experiências traumáticas e o desenvolvimento da doença. O câncer é multifatorial, envolvendo processos biológicos, genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais, entre outros fatores. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o National Cancer Institute ressaltam a complexidade de sua origem e a importância de considerar os fatores de risco reconhecidos.
Essa precisão é fundamental: uma mulher que desenvolve câncer não deve ser levada a acreditar que adoeceu porque sofreu demais, não conseguiu perdoar, guardou mágoas ou deixou de cuidar de suas emoções.
Reconhecer a relação entre saúde mental e saúde física significa compreender que o organismo funciona de maneira integrada, sem reduzir a complexidade de uma doença à história emocional de quem a enfrenta.
A reflexão que eu gostaria de promover é justamente pensar por que tantas mulheres precisam chegar ao limite da exaustão para reconhecer que também necessitam de cuidado?
É necessário reconhecer limites, construir relações mais respeitosas, procurar acompanhamento psicológico quando necessário, compartilhar responsabilidades e ter acesso aos serviços de saúde. Reconhecer nossas vulnerabilidades não elimina a força e a capacidade de continuar, apenas nos direciona a compreender que também necessitamos de cuidados.
A promoção do autocuidado, associado a momentos de descanso, atividades prazerosas ou mudanças de hábitos, são importantes, mas não suficientes dependendo do contexto quando a mulher vive sob condições persistentes de sobrecarga, violência, abandono ou falta de apoio.
A mulher que sustenta tantas pessoas também precisa de espaços nos quais possa deixar de sustentar tudo sozinha.
Na arteterapia, a experiência humana pode encontrar caminhos de expressão que não dependem exclusivamente da linguagem verbal. Cores, formas, imagens, gestos, texturas e materiais artísticos podem favorecer a aproximação de sentimentos, memórias e percepções que, por diferentes razões, são difíceis de nomear.
Selma Ciornai, importante referência brasileira na área, contribui para a compreensão das práticas arteterapêuticas como processos que valorizam a experiência criativa, a expressão subjetiva e a construção de sentidos.
Para muitas mulheres, criar pode representar uma oportunidade de interromper momentaneamente as exigências cotidianas e voltar a atenção para aquilo que sentem, desejam e necessitam. Esse processo pode favorecer a expressão emocional e o autoconhecimento, embora não substitua acompanhamento médico ou psicológico quando indicado.
A arte não promete cura, no entanto seu potencial reside na possibilidade de oferecer presença, expressão, elaboração e encontro consigo mesma.
Neste mẽs de outubro, a conscientização sobre o câncer de mama precisa estar acompanhada de informação científica confiável, acesso aos serviços de saúde, avaliação individualizada dos fatores de risco e realização dos exames recomendados conforme as orientações de saúde vigentes.
Ao mesmo tempo, precisamos ampliar as conversas sobre saúde mental, violência contra a mulher, sobrecarga de cuidado e condições de vida que comprometem o bem-estar feminino.
Não se trata de substituir a prevenção do câncer por discursos sobre emoções, mas de compreender que o cuidado integral não pode ignorar nenhuma dessas dimensões.
Uma mulher precisa ter acesso ao diagnóstico e ao tratamento de uma doença física. Precisa também encontrar condições para cuidar da saúde mental, receber apoio diante de experiências difíceis e viver sem que sua existência seja permanentemente organizada em torno das necessidades dos outros.
Talvez uma das perguntas mais importantes deste Outubro Rosa não seja apenas se estamos atentas aos sinais do nosso corpo, mas se temos encontrado espaço para reconhecer nossas próprias necessidades.
Quero propor mais uma inquietação: Quando foi a última vez que fez algo por si mesma sem considerar essa escolha um ato de egoísmo?
Muitas mulheres tendem a sentir culpa, quando cuidam de si mesmas. Quando percebem que estão se amando, se encontrando e se percebendo, e por vezes investindo recursos para a promoção da própria saúde e bem estar, por vezes, sentem culpa, por não investir este mesmo recurso nas pessoas que cuidam.
Não temos como controlar todos os fatores envolvidos no adoecimento. Tampouco podemos garantir que o sofrimento emocional não produzirá repercussões físicas. O que podemos fazer é reconhecer os sinais de sofrimento, buscar ajuda, fortalecer redes de apoio e construir condições de vida mais saudáveis.
Neste Outubro Rosa, que o cuidado não se limite à lembrança de uma campanha. Que ele se transforme em acesso à saúde, informação, escuta, prevenção e responsabilidade coletiva. E que toda mulher entenda a necessidade de olhar para si.
Que nenhuma mulher precise adoecer para que sua dor seja levada a sério. Que nenhuma precise chegar ao esgotamento para merecer descanso. E que nenhuma seja responsabilizada por uma doença como se o sofrimento vivido fosse uma escolha ou uma falha pessoal.
Cuidar da mulher é reconhecer sua integralidade: corpo, história, subjetividade, vínculos e condições de existência.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Fatores de risco para o câncer de mama. Disponível no portal oficial do INCA.
CIORNAI, Selma (org.). Percursos em arteterapia: arteterapia gestáltica, arte em psicoterapia, supervisão em arteterapia. São Paulo: Summus.
Fabiana Ribeiro é Pedagoga, Psicopedagoga, Neuroeducadora, Arteterapeuta, graduanda em Terapia Educacional, pós graduanda em Análise do Comportamento ABA, Ludicidade e Artes, apresentadora de PodCast, professora de Educação Infantil na Municipalidade de Cotia, Integrante do Grupo Flor em Flor, e proprietária do Essentia Espaço Terapêutico.



