Por Carla Perin
@cacaperin
Você se levanta do sofá, ele levanta. Vai para a cozinha, ele vai atrás. Entra no quarto, lá vem ele novamente. E quando você pensa que finalmente terá alguns minutos sozinho no banheiro… aparece aquele focinho na porta. Para muitos tutores, a cena é tão comum que virou até motivo de brincadeira: “Depois que tive cachorro, nunca mais fui sozinho ao banheiro.” Mas por que alguns cães fazem isso? A primeira explicação é bastante simples: cães são animais sociais. Ao longo da convivência conosco, eles aprenderam a observar nossos movimentos, nossas expressões e principalmente nossas rotinas. Para um cão que possui um vínculo próximo com seu tutor, acompanhá-lo pela casa pode simplesmente fazer parte da convivência. Ele quer saber para onde você vai. O que vai acontecer. E, claro, se existe alguma possibilidade de comida envolvida naquela caminhada até a cozinha. Nem tudo precisa ser interpretado como carência ou dependência. Dentro de uma família multiespécie, o tutor pode se tornar uma importante referência de segurança para o animal. Sua presença está associada à alimentação, passeios, carinho, brincadeiras, descanso e previsibilidade. Por isso, alguns cães simplesmente preferem estar onde aquela pessoa está. E existe algo bonito nisso. Entre tantos lugares disponíveis dentro de uma casa, muitas vezes o animal escolhe justamente aquele onde estamos. Mas existe uma diferença importante entre: Eu gosto de ficar perto de você e eu não consigo ficar sem você. Quando devemos prestar atenção? Se o cachorro acompanha o tutor pela casa, mas consegue permanecer tranquilo quando fica sozinho, provavelmente estamos diante de um comportamento social perfeitamente normal. Por outro lado, quando a ausência do tutor provoca sofrimento intenso, o cenário muda. Latidos ou uivos persistentes, destruição de portas e objetos, tentativas de fuga, salivação excessiva, agitação, eliminação inadequada e incapacidade de relaxar quando fica sozinho podem estar relacionados a problemas ligados à separação. Nesse caso, não estamos falando simplesmente de um cachorro “muito apegado”. Estamos diante de um animal que pode estar sofrendo e precisa ser avaliado. E o olhar sistêmico? Talvez exista uma pergunta interessante também para nós, humanos: Como é, para mim, ser tão necessário para esse animal? Algumas pessoas adoram essa proximidade. Outras se sentem sufocadas. Há quem interprete o cão seguindo seus passos como a maior demonstração de amor do mundo. Nenhuma dessas respostas, isoladamente, conta toda a nossa história. Mas a maneira como vivemos esse vínculo também pode nos ensinar alguma coisa sobre nós. Porque uma relação saudável não precisa escolher entre vínculo e autonomia. Podemos amar profundamente um animal e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a sentir-se seguro quando não estamos por perto. Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de pertencimento. Então, da próxima vez que você fechar a porta do banheiro e encontrar aquele focinho esperando do outro lado, pode sorrir. Na maioria das vezes, ele provavelmente só está dizendo, à maneira dele: “Se você está aí, eu também quero estar.”
E, convenhamos…privacidade nunca foi exatamente uma cláusula do contrato quando decidimos dividir a vida com um cachorro.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais



