Por Charles Pires
Você já percebeu como um único erro pode ocupar nossa mente por horas, enquanto vários acertos parecem desaparecer rapidamente?
Recebemos dez elogios e uma crítica e, muitas vezes, é justamente a crítica que levamos para casa. Terminamos o dia tendo realizado diversas coisas, mas basta algo não sair como esperávamos para surgir aquela sensação: “Hoje não fiz o suficiente.”
Parece estranho, mas nossa mente nem sempre avalia nossa história de maneira equilibrada.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, aprendemos que a forma como interpretamos uma situação influencia aquilo que sentimos e, consequentemente, como nos comportamos. Entre os padrões de pensamento que podem aparecer está o chamado filtro mental, quando nossa atenção se concentra principalmente em determinado aspecto negativo e deixa em segundo plano outras informações importantes.
É como olhar para uma parede branca que possui um pequeno ponto preto. Quando alguém pergunta o que estamos vendo, respondemos: “Um ponto preto”, esquecendo que quase toda a parede continua branca.
Na vida, podemos fazer exatamente isso conosco. Erramos uma vez e pensamos: “Eu sempre faço tudo errado”. Algo não funciona e concluímos: “Eu não consigo”. Alguém nos critica e começamos a questionar nosso próprio valor.
Enquanto isso, decisões acertadas, dificuldades superadas e pequenas conquistas vão sendo tratadas como se fossem apenas obrigação. Quando acertamos, pensamos: “Não fiz mais do que deveria.” Quando erramos, a reação é bem diferente: “Como pude fazer isso?”
Aos poucos, podemos desenvolver uma relação injusta com a própria história: minimizamos aquilo que fazemos bem e ampliamos aquilo que fazemos mal.
Imagine uma pessoa subindo uma montanha. Depois de horas caminhando, ela para, mas, em vez de olhar para trás e perceber o quanto já percorreu, olha apenas para o topo e pensa: “Ainda falta tudo isso.”
O caminho percorrido não desapareceu. O problema é que seus olhos estão concentrados somente naquilo que falta.
Quantas vezes fazemos isso com a nossa própria vida?
Talvez você ainda não esteja profissionalmente onde gostaria, mas já avançou. Talvez ainda tenha dificuldades emocionais, mas hoje consiga lidar com situações que antes pareciam impossíveis. Talvez alguns objetivos continuem distantes, mas decisões tomadas anos atrás permitiram que você chegasse até aqui.
Reconhecer isso não significa acomodação. Existe uma diferença enorme entre dizer “já fiz o suficiente, não preciso mais crescer” e dizer “ainda quero crescer, mas reconheço o quanto já caminhei.”
Reconhecer o próprio progresso não enfraquece a evolução. Pelo contrário, pode tornar o caminho mais saudável.
O problema aparece quando transformamos nossa vida em uma corrida cuja linha de chegada é constantemente empurrada para frente. Conquistamos algo e imediatamente pensamos no próximo objetivo. Chegamos onde queríamos e aquilo rapidamente perde o valor. O que antes era um sonho passa a ser tratado como obrigação e, assim, surge uma sensação perigosa: nunca é suficiente.
Talvez por isso algumas pessoas tenham tanta dificuldade para responder a uma pergunta aparentemente simples: “Do que você se orgulha em sua própria história?”
Elas conseguem listar erros, falar sobre aquilo que deveriam ter feito e apontar suas falhas, mas precisam pensar muito para reconhecer suas conquistas.
Em terapia, aprender a observar esses pensamentos é importante porque pensar alguma coisa sobre nós não transforma automaticamente esse pensamento em verdade.
Quando surgir “eu não consigo”, talvez seja necessário perguntar: “Nunca consegui ou não consegui desta vez?” Quando aparecer “eu sempre faço tudo errado”, podemos questionar: “Tudo realmente deu errado ou minha mente está destacando apenas aquilo que não funcionou?”
São perguntas simples, mas que podem mudar a maneira como contamos nossa própria história.
Isso não significa ignorar nossos erros. Eles podem mostrar o que precisa ser corrigido, ensinar novos caminhos e revelar nossos limites. O que precisamos compreender é a diferença entre aprender com um erro e transformar o erro em identidade.
Você pode ter fracassado em algo sem ser um fracasso. Pode ter tomado uma decisão ruim sem ser incapaz de tomar boas decisões. Da mesma forma, pode estar enfrentando dificuldades sem concluir que sua vida inteira está dando errado.
Talvez precisemos aprender a olhar para nossa história como olharíamos para uma longa estrada. Existem buracos, curvas e trechos que talvez escolhêssemos percorrer de outra maneira se pudéssemos voltar. Mas também existem quilômetros vencidos.
E você não precisa esperar chegar ao destino para reconhecer isso.
De vez em quando, vale a pena olhar para trás, não para viver no passado, mas para perceber a distância que já percorreu. Talvez você descubra que aquela pessoa que hoje pensa que ainda fez muito pouco já venceu situações que um dia acreditou que não conseguiria enfrentar.
Reconhecer o próprio progresso não é acreditar que chegamos ao fim. É apenas deixar de apagar tudo aquilo que foi necessário para chegarmos até aqui.
Porque, às vezes, enquanto nossos olhos estão concentrados naquilo que ainda falta, deixamos de perceber algo importante:
já existe uma história de superação acontecendo atrás de nós.
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



