Por Erika Ricci
Sinais existem. Escuta, acolhimento, e atenção podem mudar uma história.
O caso do menino Henry voltou a ocupar espaço nos noticiários e nas conversas de muitas famílias brasileiras. Independentemente das discussões jurídicas e das decisões da Justiça, existe uma reflexão que ultrapassa qualquer processo: a necessidade de aprendermos a ouvir as crianças de forma mais atenta e sensível.
Quando uma tragédia envolvendo uma criança acontece, é comum que as pessoas se perguntem se existiam sinais, se alguém percebeu algo diferente ou se aquele sofrimento poderia ter sido identificado antes. Essas perguntas são difíceis porque nos confrontam com uma realidade desconfortável: crianças nem sempre conseguem pedir ajuda de maneira clara.
Segundo relatos divulgados durante as investigações do caso, Henry teria apresentado sinais que chamaram a atenção de pessoas próximas em diferentes momentos. Queixas frequentes de dores, episódios em que apareceu mancando, relatos de desconfortos físicos e mudanças observadas em seu comportamento passaram a integrar as discussões sobre o caso ao longo do processo.
É importante lembrar que nenhum desses sinais, isoladamente, confirma qualquer situação de violência. Crianças podem sentir dores, apresentar medos, ficar mais irritadas ou mais quietas por inúmeros motivos. O que merece atenção é a repetição desses sinais, especialmente quando surgem de forma persistente ou acompanhados de mudanças importantes no comportamento.
A infância possui uma característica que muitas vezes os adultos esquecem: as crianças nem sempre possuem maturidade emocional ou vocabulário suficiente para explicar exatamente o que estão sentindo. Por isso, frequentemente utilizam outras formas de comunicação.
Algumas crianças passam a apresentar dificuldades para dormir. Outras desenvolvem medos repentinos, ficam mais agressivas, mais ansiosas ou excessivamente dependentes dos pais. Algumas demonstram queda no rendimento escolar. Outras se tornam mais silenciosas e retraídas. Há ainda aquelas que manifestam seu sofrimento através do próprio corpo, com dores de cabeça, dores de barriga ou outras queixas físicas sem uma explicação médica evidente.
O comportamento infantil funciona, muitas vezes, como uma linguagem emocional. Quando uma criança muda de forma significativa, não devemos olhar apenas para o comportamento em si, mas para aquilo que ela pode estar tentando comunicar através dele.
Isso não significa viver em estado de alerta constante ou interpretar qualquer mudança como um sinal de perigo. Significa apenas desenvolver uma escuta mais cuidadosa, observando padrões, mudanças persistentes e sinais que aparecem repetidamente ao longo do tempo.
Proteger uma criança vai muito além de oferecer alimentação, educação e segurança física. Também envolve estar disponível emocionalmente para perceber quando algo não está bem, mesmo quando ela não consegue explicar o motivo.
Talvez uma das lições mais importantes que casos como o de Henry nos deixam seja a necessidade de enxergar a infância com mais atenção. Crianças precisam ser ouvidas quando falam, mas também quando choram sem motivo aparente, quando mudam de comportamento, quando demonstram medo, quando se calam ou quando tentam expressar sua dor através de atitudes que os adultos muitas vezes interpretam apenas como “manha”, “rebeldia” ou “fase”.
Toda criança merece crescer cercada por adultos capazes de protegê-la, acolhê-la e, principalmente, perceber quando ela está tentando pedir ajuda.
Porque, muitas vezes, o pedido de socorro mais importante não é aquele que é dito em palavras. É aquele que aparece silenciosamente no comportamento e espera que alguém esteja disposto a enxergar.
Erika Ricci – Psicóloga Clínica
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