Por Fabrizio Martins Tavoni
@fabriziotavoni_profissional
Setembro se pinta de amarelo. Nos postos de saúde, nas redes sociais, nas conversas de escola, temos a volta de um tema que costumamos empurrar para o canto: o suicídio. E a primeira reação, quase automática, é buscar a explicação na história de cada pessoa. O luto, a doença, a dívida, o desamor. Cada caso tem um rosto, um nome, uma dor que parece pertencer a alguém e a mais ninguém.
Foi contra essa intuição que Émile Durkheim, sociólogo francês, escreveu, em 1897, um dos livros mais influentes da sociologia. “O Suicídio” fez uma pergunta que soava quase indecente para a época: e se aquilo que parece o gesto mais íntimo e solitário que existe tivesse, também, uma dimensão social?
Durkheim não negava o sofrimento individual, mas ele percebeu, ao comparar registros de mortes por suicídio em diferentes países, religiões e grupos, que as taxas não variavam ao acaso. Ano após ano, certos grupos apresentavam índices sistematicamente mais altos ou mais baixos do que outros, e essa regularidade se mantinha com uma constância que a soma de tragédias individuais, isoladas, não conseguiria explicar. Se fosse só uma questão de biografias, os números teriam uma variação, eles dançariam. Mas eles não dançavam.
A questão para Durkheim estava nos laços que prendem (ou soltam) o indivíduo à vida coletiva. Quando esses laços se afrouxam demais, a pessoa fica entregue apenas a si mesma, sem os apoios e os freios que a vida em comum oferece. Quando as regras que orientam os desejos e as expectativas se desmancham – a anomia de que falamos no texto anterior -, o indivíduo se vê sem chão, perseguindo metas que nunca se completam. Em ambos os casos, o que adoece não é só a pessoa: é o tecido social que deveria sustentá-la.

Foi assim que Durkheim chegou a distinguir tipos diferentes de suicídio, cada um ligado a um modo de a sociedade falhar com o indivíduo. Onde os vínculos são frágeis demais e cada um vive por si, ele falava em suicídio egoísta, o da pessoa que não pertence a nada maior do que ela mesma. Onde as normas se rompem e as ambições ficam sem medida, tem-se o suicídio anômico, típico de tempos de crise ou de mudança brusca. E, no extremo oposto, onde o indivíduo se dissolve por completo no grupo, o suicídio altruísta, o de quem se sacrifica porque a coletividade assim o exige. O que chama a atenção nessa tipologia é que tanto o excesso quanto a falta de integração podem ferir: nem o isolamento absoluto, nem a diluição total do sujeito no coletivo protegem a vida.
Mais de um século depois, isso segue incômodo de tão atual que é. Vivemos cercados de conexões que muitas vezes não conectam, de redes que aproximam telas e afastam pessoas, de exigências de sucesso que nunca se dão por satisfeitas. O trabalho que se infiltra em todas as horas do dia, as cidades que empilham gente e produzem solidão, os vínculos que se tornam descartáveis; tudo isso desenha, à sua maneira, os mesmos afrouxamentos que Durkheim identificou nos registros do século XIX. Reconhecer isso não retira a responsabilidade de cuidar de cada história singular; mas nos lembra de que há um pano de fundo comum, e que ele também pode ser transformado.

Isso muda tudo na forma de encarar o problema. Se o suicídio tivesse causas puramente individuais, restaria apenas cuidar de cada um, um por um, depois que a crise chega. Mas se ele tem também uma face social, então há algo que uma sociedade deve (ou pelo menos deveria) fazer antes: fortalecer vínculos, combater o isolamento, cuidar das condições que deixam as pessoas à deriva. A prevenção deixa de ser só um assunto de consultório e passa a ser, também, uma responsabilidade coletiva.

É por isso que o Setembro Amarelo importa como gesto público e não só como campanha. Falar abertamente, acolher sem julgar, perguntar como o outro está. Essas coisas pequenas refazem, no dia a dia, os laços que Durkheim viu se romper nos números. A dor pode parecer só sua. Mas cuidar dela, quase sempre, é tarefa de todos nós.
Se você está passando por um momento difícil ou precisa conversar, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também por chat e e-mail em cvv.org.br.
Fabrizio Martins Tavoni · Sociólogo (UEL), Mestre em Ciência Política (UFSCar), Doutorando em Educação (Unicamp).



