Por Valquíria Gomes da Silva
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Quando um pai leva o filho à escola, participa de uma reunião, prepara o jantar ou passa um dia inteiro sozinho com a criança, frequentemente recebe elogios: “Que paizão!”.
Para a mãe, nada disso é extraordinário. É obrigação. Esperamos que ela saiba o horário da escola, marque o pediatra, acompanhe as tarefas, compre o uniforme, organize a alimentação, perceba qualquer mudança de comportamento e ainda concilie maternidade, trabalho, relacionamento e casa.
Ou seja, do pai, esperamos presença. Da mãe, excelência. E essa diferença de expectativas produz consequências enormes dentro das famílias. A pergunta “seu marido te ajuda com as crianças?” é um ótimo exemplo.
Um pai não “ajuda” quando dá banho, prepara a comida ou leva o próprio filho ao médico. Ele exerce a paternidade. Quando tratamos essas atitudes como ajuda, partimos do pressuposto de que a responsabilidade principal é da mulher e que o homem apenas colabora com aquilo que, na verdade, também é obrigação dele.
O resultado é uma geração de mulheres exaustas. Não apenas pelo volume de tarefas, mas pela carga mental: é a mãe quem precisa lembrar que acabou a fralda, que amanhã tem atividade na escola, que o remédio precisa ser comprado, que a vacina está atrasada e que é necessário marcar o dentista.
Mesmo quando o pai executa uma tarefa, muitas vezes foi ela quem percebeu que precisava ser feita, pediu que ele fizesse e depois verificou se foi realizada.
E então, depois de anos dessa dinâmica, alguns relacionamentos começam a ruir. Nem sempre existe uma grande traição ou um acontecimento extraordinário. Às vezes, existe apenas uma mulher profundamente cansada de precisar administrar tudo.
Ela não queria necessariamente um marido que “ajudasse mais”. Queria um parceiro que também enxergasse a família como responsabilidade sua.
Como advogada atuante em Direito de Família, vejo essa desigualdade mais evidente depois da separação. Há mães que continuam responsáveis por praticamente toda a administração da vida dos filhos e, além disso, passam a administrar também a relação entre pai e filho.
Precisam avisar sobre reunião escolar, lembrar consultas, informar sobre medicamentos, mandar roupas, explicar a rotina e até cobrar que o pai exerça a própria convivência. E aqui existe uma reflexão importante: a coparentalidade não pode se transformar em mais uma tarefa materna.
Existe diferença entre compartilhar informações importantes e transformar a mãe em secretária da paternidade. O pai também pode acompanhar a escola. Também pode conhecer o pediatra. Também pode saber o tamanho da roupa, o nome do professor, os medicamentos utilizados e os compromissos da criança.
Paternidade não deveria ser exercida apenas nos dias de convivência. Da mesma forma, precisamos parar de transformar a sobrecarga feminina em elogio do tipo: “Você é uma guerreira.” “Você dá conta de tudo.” Talvez a pergunta correta seja: por que ela precisa dar conta de tudo?
Mulheres não precisam ser supermães. Precisam ter o direito de errar, cansar, trabalhar, descansar e dividir responsabilidades sem que isso coloque em dúvida a qualidade de sua maternidade.
E os homens também precisam ser chamados para ocupar plenamente o lugar de pais.
Durante muito tempo, ensinamos às mulheres que uma boa mãe precisa fazer tudo. E ensinamos aos homens que participar já é suficiente. Depois nos surpreendemos quando encontramos mulheres sobrecarregadas, homens distantes da rotina dos próprios filhos e casamentos tomados pelo ressentimento.
Uma família não precisa de uma supermãe e de um pai que ajuda. Precisa de dois adultos que compreendam que criar, cuidar e amar os filhos é responsabilidade de ambos. Porque, enquanto continuarmos exigindo mães extraordinárias e aceitando pais medianos, continuaremos cobrando das mulheres aquilo que deveria ter sido dividido desde o início.


