Por Fabrizio Martins Tavoni
Lembro-me de uma reportagem em que uma mulher contava que havia largado o emprego. Não porque foi mal, pelo contrário, tinha sido promovida, ganhava bem, colecionava elogios. Mas descreveu uma sensação difícil de nomear: a de estar correndo numa esteira que acelerava sozinha, sem linha de chegada à vista. “Eu bati todas as metas”, disse, “e no dia seguinte já tinha outra maior me esperando. Nunca era o bastante.” Ela não estava cansada de trabalhar. Estava cansada de não saber mais para onde estava indo.

Guardei na memória essa frase. Ela descreve, com uma precisão que a própria pessoa talvez não percebesse, algo que um sociólogo francês chamou, há mais de um século, de anomia.
Émile Durkheim cunhou o termo a partir do grego: a ausência de nómos, de norma, de lei. Mas atenção, anomia não é a ausência de regras no sentido de bagunça, de vale-tudo. É algo mais desconfortável. É quando as regras que davam sentido às nossas ações se afrouxam, se embaralham ou simplesmente deixam de nos dizer onde parar. É a sensação de dirigir no nevoeiro: a estrada existe, o carro anda, mas você perdeu as placas que diziam para onde ir e a que velocidade.

Pode soar estranho pensar que precisamos de limites para nos sentirmos bem. Vivemos numa época que celebra o “sem limites”, o “vá além”, o “céu é o limite”. Só que Durkheim observou algo contraintuitivo: é justamente a existência de balizas claras, expectativas partilhadas sobre o que é uma vida boa, sobre até onde ir, sobre o que basta, que nos protege da angústia. Quando essas balizas somem, o desejo perde a referência. E um desejo sem referência de medida não conhece satisfação: sempre haverá um degrau acima, uma meta maior, um vizinho com mais. A esteira nunca desliga.
Ele percebeu isso estudando um paradoxo. Não era nas crises de miséria que certos sofrimentos sociais mais se agravavam; era também, às vezes, nos momentos de prosperidade súbita, de expansão acelerada, quando as antigas referências deixavam de valer e nenhuma nova tinha ainda se firmado no lugar. O problema não era ter pouco. Era ter perdido a medida.
Olhe em volta e a anomia deixa de ser um conceito empoeirado num sebo. Ela está no profissional que troca de emprego a cada dois anos porque nenhum lugar parece ser “o” lugar. Está na cultura da produtividade que transformou o descanso em culpa e o ócio em falha moral. Está no burnout, essa palavra que virou onipresente justamente porque descreve o esgotamento de quem corre sem saber mais por quê. Está na sensação, tão comum hoje, de que temos infinitas opções e, no entanto, uma vaga suspeita de que nada nos preenche.
Não se trata de romantizar o passado. Muitas dessas antigas normas eram injustas, e derrubá-las foi conquista, não perda. A questão que Durkheim nos deixa é outra e mais sutil: toda sociedade precisa oferecer aos seus membros algum senso partilhado de medida, de sentido, de para onde vamos juntos. Quando ela falha nisso, o custo não aparece só nas estatísticas econômicas. Aparece no corpo cansado, na mente inquieta, na pergunta que insiste às três da manhã.

Aquela pessoa da reportagem não largou o emprego por preguiça. Largou porque intuiu, sem ter a palavra, que estava vivendo num mundo sem placas. Deixo aqui uma pergunta: quando foi a última vez que você se perguntou não se está correndo rápido o bastante, mas se ainda sabe para onde está correndo? Pois essa distância entre o quanto nos cobramos e o quão pouco sabemos o porquê é, provavelmente, a ferida mais silenciosa do nosso tempo. E há situações em que ela deixa de ser desconforto e se torna algo bem mais grave. Mas disso conversaremos no próximo texto.
Fabrizio Martins Tavoni é Sociólogo formado pela UEL, Mestre em Ciência Política e atualmente concluindo um Doutorado em Educação.



