Por Charles Pires
Quantas vezes você já ouviu alguém dizer: “Eu sou assim mesmo, quem quiser gostar de mim vai ter que me aceitar”?
Talvez você mesmo já tenha usado essa frase. Às vezes, ela aparece como uma demonstração de personalidade, uma maneira de afirmar que não precisamos mudar para agradar ninguém. E, em certa medida, isso é verdade. Não deveríamos passar a vida tentando nos transformar naquilo que os outros esperam de nós.
Mas existe uma diferença importante entre aceitar quem somos e usar quem somos como justificativa para nunca mudar.
Nas últimas semanas, refletimos aqui sobre a necessidade de aprovação, sobre os personagens que construímos para sermos aceitos e sobre o quanto podemos nos afastar de nossa própria identidade tentando impressionar os outros. Agora, talvez seja necessário olhar para o outro lado dessa questão: e quando nos apegamos tanto à ideia de quem somos que deixamos de perceber quem poderíamos nos tornar?
É comum ouvirmos expressões como “sempre fui nervoso”, “não consigo confiar em ninguém”, “sou uma pessoa muito fechada” ou “não levo jeito para isso”. São frases aparentemente simples, mas que podem esconder algo importante: a transformação de comportamentos em definições permanentes sobre nós mesmos.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, compreendemos que nossas experiências contribuem para a formação de crenças sobre quem somos e sobre aquilo que somos capazes de fazer. Quando repetimos determinada interpretação durante muito tempo, podemos começar a tratá-la como uma verdade absoluta.
Uma pessoa que cresceu sendo criticada, por exemplo, pode desenvolver a crença de que nunca faz nada suficientemente bem. Alguém que enfrentou rejeições pode aprender a evitar vínculos por medo de sofrer novamente. Com o passar dos anos, essas respostas podem se tornar tão familiares que parecem fazer parte da própria personalidade.
Mas será que tudo aquilo que aprendemos a fazer representa, necessariamente, quem somos?
Imagine uma árvore que cresceu inclinada porque, durante muitos anos, precisou procurar a luz entre dois grandes muros. Sua forma atual conta uma história sobre o ambiente em que se desenvolveu. Mas seria um erro acreditar que aquela inclinação representa todas as possibilidades de seu crescimento.
Com as pessoas, algo semelhante pode acontecer. Nossa história ajuda a explicar como nos tornamos quem somos, mas não precisa determinar tudo aquilo que ainda podemos ser.
Isso não significa que qualquer comportamento possa ser facilmente modificado. Existem características pessoais, condições de vida e dificuldades que não desaparecem simplesmente porque decidimos pensar diferente. Mudar exige consciência, oportunidades, prática e, em algumas situações, acompanhamento profissional.
O problema está em transformar uma explicação em sentença.
Quando alguém diz “sou assim porque sempre fui assim”, pode estar fechando uma porta antes mesmo de descobrir o que existe do outro lado.
E há outro detalhe: às vezes, permanecer como estamos parece mais confortável do que enfrentar o desconhecido. Afinal, mudar pode exigir reconhecer erros, abandonar antigas justificativas e assumir responsabilidades que antes evitávamos.
É mais fácil dizer “sou explosivo” do que aprender a lidar com a raiva. Mais simples afirmar “não confio em ninguém” do que investigar o medo de se machucar. E, em algumas situações, parece mais seguro acreditar que não somos capazes do que correr o risco de tentar e fracassar.
Não se trata de julgar essas atitudes. Muitas delas podem ter sido maneiras de proteção em determinados momentos da vida. A questão é perceber quando aquilo que um dia nos ajudou a enfrentar dificuldades começa a limitar nossas escolhas.
A filosofia nos lembra que a vida humana não é uma obra concluída. Estamos constantemente sendo influenciados por experiências, decisões e aprendizados. Não somos uma página em branco, mas também não precisamos considerar que nossa história já está inteiramente escrita.
Talvez amadurecer seja justamente aprender a distinguir aquilo que merece ser preservado daquilo que precisa ser transformado.
Você não precisa abandonar sua essência para melhorar a maneira como se relaciona. Não precisa deixar de ser sensível para aprender a estabelecer limites, nem deixar de ser uma pessoa firme para desenvolver mais empatia.
Mudar um comportamento não significa trair quem você é. Pode significar deixar de repetir aquilo que já não combina com a pessoa que deseja ser.
Por isso, proponho uma pequena reflexão para esta semana. Observe uma situação em que costuma dizer “eu sou assim” e experimente substituir essa afirmação por uma pergunta: “Eu realmente sou assim ou aprendi a agir dessa maneira?”
Depois, pense em uma atitude diferente que poderia experimentar. Não precisa ser uma grande transformação. Pode ser ouvir antes de responder, expressar um sentimento que costuma esconder ou reagir com mais calma diante de algo que normalmente provoca irritação.
Talvez você descubra que algumas características realmente fazem parte de quem é. Outras, porém, podem ser apenas caminhos que percorreu tantas vezes que esqueceu da existência de alternativas.
E é justamente aí que começa uma mudança importante.
O passado pode explicar por que aprendemos a ser de determinada maneira. Mas não precisa ter a palavra final sobre quem escolheremos nos tornar.
Porque, às vezes, a frase que mais nos impede de crescer não é “eu não consigo”.
É simplesmente: “Eu sou assim.”
Por Charles Audrei Batista Pires – Terapeuta, Palestrante, Empresário, Escritor e Compositor.
Agendamentos de Sessão: (14) 99161-9189 – Instagram @charlespiresterapeuta



