Por Bia Rossatti
@biarossattiterapeuta
Há momentos em um casamento em que a dúvida deixa de ser apenas uma pergunta e passa a ocupar quase todos os pensamentos.
“Será que ainda amo? Será que vale a pena continuar? Será que estamos apenas atravessando uma fase difícil? Será que o divórcio seria a melhor escolha?”
Para algumas mulheres, essas perguntas aparecem depois de anos de conflitos, distanciamento, ressentimentos ou tentativas frustradas de mudança. Para outras, surgem de maneira mais silenciosa: o casal continua vivendo sob o mesmo teto, dividindo responsabilidades e construindo a rotina, mas a conexão parece ter desaparecido.
Às vezes, partir dói, mas permanecer daquela maneira também dói.
É nesse espaço de ambivalência que muitas pessoas se encontram antes de tomar uma decisão sobre o futuro do casamento.
Quando não sabemos mais o que estamos sentindo
Nem sempre é fácil diferenciar falta de amor de exaustão emocional.
Depois de muito tempo vivendo conflitos repetitivos, uma pessoa pode começar a associar o próprio relacionamento exclusivamente ao sofrimento. O que antes despertava carinho pode passar a despertar irritação. Conversas simples podem se transformar em discussões. Pequenas diferenças podem carregar o peso de anos de ressentimento.
Nesse momento, pensar em separação pode representar não necessariamente o desejo de abandonar aquela pessoa, mas o desejo de abandonar uma forma de viver que se tornou insustentável.
Essa diferença merece atenção. Perguntar “eu ainda amo?” pode ser importante, mas talvez não seja suficiente.
Também precisamos perguntar: O que aconteceu com a nossa relação? Que padrão estamos repetindo? O que cada um está tentando conseguir ou proteger quando reage da maneira que reage? Ainda existe disposição dos dois para construir algo diferente?
A ambivalência não deve ser ignorada
A ciência também tem investigado esse estado de incerteza dentro dos relacionamentos.
Um estudo longitudinal acompanhou 370 casais ao longo de oito anos para investigar justamente o papel da ambivalência conjugal — aquela experiência de ter sentimentos positivos e negativos em relação ao relacionamento e não saber claramente qual caminho seguir.
Os pesquisadores encontraram uma associação entre maior ambivalência e maior conflito conjugal. Entre os casais que permaneceram juntos, níveis mais elevados de ambivalência também estiveram relacionados a menor satisfação e a uma maior consideração do divórcio.
Isso não significa que estar em dúvida seja uma prova de que o casamento precisa terminar.
Tampouco significa que toda relação em crise possa ou deva ser reconstruída.
O que a pesquisa nos ajuda a perceber é que a ambivalência é um sinal de que existe algo importante acontecendo no vínculo e que merece ser compreendido.
O problema pode estar no ciclo, e não em um “culpado”
Quando um casal está sofrendo, é muito comum que cada pessoa consiga enxergar com clareza o que o outro está fazendo de errado.
“Ele nunca me escuta.” “Ela reclama de tudo.” “Ele se afasta.” “Ela me pressiona.” “Ele não demonstra.” “Ela nunca está satisfeita.”
E, muitas vezes, os dois estão descrevendo partes verdadeiras da mesma história.
Um parceiro se sente rejeitado e procura mais proximidade. O outro se sente pressionado e se afasta. O afastamento aumenta a sensação de rejeição, que provoca novas tentativas de aproximação — agora acompanhadas de cobrança. A cobrança aumenta o afastamento.
E o ciclo se repete.
Depois de algum tempo, o casal pode deixar de perceber que está diante de um padrão relacional e começar a acreditar que o problema é simplesmente a personalidade ou o caráter do outro.
“Ele é frio.” “Ela é controladora.” “Ele é egoísta.” “Ela é exigente.”
A Terapia Comportamental Integrativa de Casais, conhecida como IBCT, oferece uma perspectiva interessante justamente nesse ponto.
Em vez de concentrar o trabalho apenas em quem está certo ou errado, a abordagem procura compreender os padrões de interação e as diferenças que estão por trás dos conflitos, combinando aceitação e mudança.
Isso não significa aceitar comportamentos prejudiciais ou abrir mão de limites.
Significa compreender melhor como aquele ciclo se formou, como ele se mantém e qual é a participação de cada um nele.
Antes de decidir, compreender
Quando alguém chega ao ponto de pensar em divórcio, pode existir uma urgência legítima de encontrar uma resposta.
“Eu fico ou vou embora?”
Mas talvez a terapia não deva começar oferecendo essa resposta.
Talvez deva começar ajudando a pessoa a construir condições para fazer essa escolha com mais consciência.
Isso envolve olhar para a própria história, para as necessidades que não estão sendo atendidas, para os padrões que se repetem, para os limites que foram ultrapassados e também para aquilo que ainda existe de vivo na relação.
É importante compreender, por exemplo, se existe espaço para mudança.
Se os dois reconhecem o sofrimento. Se existe responsabilidade compartilhada. Se existe disposição para construir novas formas de relacionamento.
E também reconhecer quando determinadas situações exigem proteção, limites ou uma decisão de encerramento.
Compreender não significa permanecer.
E compreender também não significa desistir.
Significa não transformar a exaustão do momento em uma resposta definitiva sem antes olhar para o que está por trás dela.
Nem todo casamento precisa ser salvo
Existe uma polarização muito grande quando falamos sobre relacionamentos.
De um lado, aparecem discursos que defendem que todo casamento precisa ser salvo.
Do outro, mensagens que sugerem que qualquer sofrimento é suficiente para justificar uma separação imediata.
A realidade dos relacionamentos é muito mais complexa.
Existem casamentos que podem se transformar. Existem relacionamentos que precisam de mudanças profundas.
Existem casais que conseguem reconstruir a conexão depois de períodos difíceis. E existem relações que chegam ao fim.
O papel da terapia não deveria ser convencer alguém a ficar a qualquer custo, nem empurrar alguém para a separação.
O papel é criar um espaço seguro para compreender, elaborar, responsabilizar-se pelo que é possível mudar e reconhecer aquilo que não pode ou não deve ser sustentado.
E quando existem filhos?
A presença de filhos pode tornar essa decisão ainda mais difícil.
Muitas pessoas permanecem em relacionamentos infelizes porque têm medo das consequências da separação para as crianças. Outras decidem se separar acreditando que essa será necessariamente a melhor solução.
Mas a pergunta também precisa ser mais ampla:
Que ambiente emocional essa família está construindo enquanto permanece junta?
Filhos não precisam apenas de uma estrutura familiar preservada formalmente. Precisam de adultos capazes de oferecer segurança, respeito e disponibilidade emocional.
Isso não significa simplificar uma decisão complexa.
Significa lembrar que “ficar pelos filhos” e “reconstruir a relação” são coisas diferentes.
Talvez a primeira decisão não seja ficar ou partir
Quando ficar começa a doer e partir também assusta, talvez seja o momento de diminuir a velocidade da decisão e aumentar a qualidade da reflexão.
Antes de perguntar: “Eu devo me divorciar?”
talvez seja necessário perguntar:
“O que exatamente eu quero que termine?”
Quero que termine o casamento? Ou quero que termine a solidão? As brigas? O distanciamento? A sensação de não ser vista? A maneira como estamos nos relacionando?
E existe outra pergunta igualmente importante:
“O que precisaria mudar para que eu pudesse continuar nessa relação sem continuar me perdendo dentro dela?”
Nem sempre teremos uma resposta imediata. Mas a clareza raramente nasce da pressa.
Às vezes, ela começa quando conseguimos olhar para a relação sem procurar imediatamente um culpado e sem exigir de nós mesmos uma decisão antes de compreender aquilo que estamos vivendo.
Porque, antes de reconstruir um casamento ou reconstruir a própria vida depois de uma separação, existe uma etapa fundamental:
reconstruir a capacidade de se escutar.
E talvez seja justamente aí que começa a Rota da Cura.
Bia Rossatti é terapeuta de casais. Autora de Depois do Divórcio — A Rota da Cura, trabalha com relacionamentos, processos de crise, autoconhecimento e reconstrução emocional.
Referência científica: Surjadi, F. F., Wickrama, K. A. S., & Lorenz, F. O. Do couple- and individual-level ambivalence predict later marital outcomes? The mediating role of marital conflict. Journal of Social and Personal Relationships.
Sobre a IBCT: a Terapia Comportamental Integrativa de Casais é uma abordagem contemporânea de terapia de casal que integra estratégias de aceitação e mudança e busca compreender os padrões de interação que contribuem para o sofrimento conjugal.



