Por Carla Perin
“Há perdas que não deixam despedida — apenas silêncio.”
O portão ficou aberto por alguns minutos.
Uma distração, um descuido, um instante comum do dia a dia.
E então o animal saiu.
No começo, a esperança.
Chamados pela rua, buscas, cartazes, mensagens.
Dias passam. Às vezes semanas. E, em alguns casos, ele não volta.
Diante disso, nasce uma dor diferente. Não é apenas perda.
É ausência sem explicação. Sem fechamento. Sem resposta.
E junto com essa dor, surge uma pergunta silenciosa:
por que isso aconteceu?
Do ponto de vista prático, sabemos que animais podem fugir por diversos motivos.
Mas, quando olhamos pela perspectiva da medicina veterinária sistêmica, ampliamos essa compreensão. Nem tudo é apenas técnico.
Algumas experiências carregam também um significado dentro do sistema.
E isso não significa culpa. Significa olhar.
O que sai do sistema chama atenção
Na visão sistêmica inspirada no trabalho de Bert Hellinger, tudo aquilo que sai de um sistema — ou que se perde — chama o sistema para um movimento de consciência.
Quando um animal desaparece, algo importante acontece: um espaço é aberto.
E esse espaço, muitas vezes, revela dinâmicas que estavam invisíveis.
A ruptura do vínculo
O desaparecimento de um animal é uma ruptura abrupta. Não há preparação, não há despedida, não há elaboração. Isso pode ativar sentimentos profundos: culpa, impotência ,tristeza, sensação de falha, necessidade de controle .
Mas, além da dor individual, existe também um movimento no sistema.
Algo foi interrompido. Algo saiu do lugar. E o sistema sente.
O que esse vazio pode mostrar
O desaparecimento, muitas vezes, nos obriga a olhar para aquilo que estava sendo deixado de lado. Não como punição. Mas como convite.
Entre controle e aceitação
Uma das maiores dores nesse tipo de situação é a falta de controle. Não saber onde o animal está, se está bem, se vai voltar. E isso confronta diretamente uma necessidade humana profunda: a de controlar o que amamos. Mas há experiências que escapam ao controle. E, na visão sistêmica, parte da maturidade está em reconhecer isso. Nem tudo pode ser evitado. Nem tudo pode ser explicado. Mas tudo pode ser olhado.
A culpa que precisa ser acolhida
Muitos tutores carregam culpa após o desaparecimento de um animal.
“Se eu tivesse fechado o portão…”
“Se eu tivesse prestado mais atenção…”
Esses pensamentos são naturais. Mas é importante compreender: culpa não reorganiza o sistema.
Consciência, sim.
Olhar para o que aconteceu com responsabilidade, mas sem autodestruição, é o caminho possível.
Quando não há resposta
Existem situações em que o animal não volta.
E essa é uma das dores mais difíceis de elaborar, porque não há confirmação, não há encerramento.
Na visão sistêmica, nesses casos, um movimento importante é interno:
reconhecer o vínculo.
dar lugar àquele que esteve entre nós.
Quando o vínculo permanece
Mesmo quando o animal não volta, o vínculo não desaparece. Ele permanece na memória, na experiência e nas mudança transformar a dor em consciência. Não para encontrar uma explicação definitiva,
mas para dar sentido à experiência.
E talvez o maior movimento seja esse:
Porque, no fim, alguns acontecimentos não vêm para serem entendidos completamente. Vêm para serem sentidos…
e, aos poucos, integrados.
Carla Perin
Médica Veterinária Sistêmica
Terapeuta Multiespécie
Um olhar sistêmico sobre o vínculo entre humanos e animais.
@cacaperin



