Por Ramon Henrique
Durante muito tempo, crescer gay pareceu ler um roteiro que alguém escreveu sem me consultar.
O roteiro dizia: você tem que falar fino, andar rebolando, amar moda, odiar esporte e ter pavor de tudo que cheire a “coisa de homem”. Se você não marcasse todas essas caixas, o mundo tratava de te lembrar: “mas você nem parece gay”.
E isso vinha como elogio e como insulto, na mesma frase, o problema não é ser afeminado, o problema é quando a feminilidade vira a única forma autorizada de ser gay.
E o problema também é quando a masculinidade vira a única forma aceita pra não apanhar na rua.
Nos dois casos, a gente perde. Porque ser gay nunca foi sobre performance. Foi sobre afeto, sobre desejo, sobre quem você ama quando ninguém tá olhando.
Eu conheço gays que são drag queens aos sábados e engenheiros de capacete na segunda, conheço gays que torcem em estádio, têm barba cheia, jogam vôlei na areia de Salvador e voltam pra casa pra montar playlist de pop.
Conheço gays tímidos, gays escandalosos, gays casados há 20 anos, gays que nem sabem se beijam melhor na luz ou no escuro, nenhum deles é mais “verdadeiro” que o outro, a diversidade é o ponto.
O estereótipo serve pra facilitar, pra cabeça preguiçosa, é mais simples colocar todo mundo na mesma gaveta: “o gay é assim”.
Só que gaveta sufoca. E quando a sociedade só mostra um tipo de gay na novela, no meme, na piada, ela apaga todo o resto, o menino de 14 anos que gosta de futebol e tá descobrindo que gosta de meninos olha pra TV e pensa: “então eu tô errado”.
Ele aprende a se esconder antes mesmo de se entender, isso tem nome: homofobia ela não vem só de fora, vem da gente, quando a gente mesmo repete: “não seja muito viado”, “não faz isso que é coisa de bicha”.
Quebrar a caixa dói, porque você vai decepcionar gente, vai decepcionar o parente que queria um sobrinho “normal”.
Vai decepcionar o amigo gay que acha que você “passa hétero” e isso é traição, vai decepcionar o estranho da internet que quer que você seja o porta-voz de um jeito único de existir.
Mas é nesse desconforto que mora a liberdade.
Ser gay e não caber no estereótipo é lembrar que identidade não é uniforme, é poder ser delicado sem ser frágil, é poder ser bruto sem ser falso.
É poder mudar de versão sem pedir licença ,é entender que masculinidade e feminilidade não são lados opostos de um ringue.
Elas são ingredientes, e cada um tempera do seu jeito, no fim, a briga não é contra a bicha afeminada nem contra o gay másculo.
A briga é contra a ideia de que só existe um jeito certo de ser, quando a gente alarga essa imagem, a gente salva vidas.
Porque o próximo garoto que se olhar no espelho vai encontrar mais de um reflexo possível, e talvez, pela primeira vez, ele não precise escolher entre ser gay ou ser ele mesmo.
Ele vai entender que uma coisa sempre coube dentro da outra.
Texto: Ramon Henrique
Instagram:@ramonhenriquee
Crédito Fotográfico: coletivo de gênero
Fonte: UOL/Terra/revista IstoÉ/ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais.



