Pelo Psicanalista Jackson Shella
@psicanalista_jackson_shella
A pergunta parece simples, mas ela toca em algo profundo na vida de muitas mulheres: quem olha para você enquanto você olha para todo mundo? Autonomia emocional não é sobre se fechar, não precisar de ninguém ou fingir força o tempo todo. É sobre seguir cuidando, amando, se envolvendo, mas sem se abandonar nesse caminho. Na saúde da mulher, falamos muito de exames, alimentação, sono, atividade física – tudo isso é fundamental. Mas existe um outro eixo de cuidado, silencioso e poderoso, que passa pela forma como você se coloca nas relações: o quanto você consegue dizer “isso eu quero”, “isso eu não dou conta”, “assim me machuca”, sem se sentir culpada por existir.
Talvez você se reconheça em algumas cenas do dia a dia: você diz “tá tudo bem” quando, na verdade, o corpo está gritando cansaço. Ri de comentários que te ferem para não parecer “sensível demais”. Assume mais uma tarefa no trabalho ou em casa, mesmo já exausta, para não decepcionar ninguém. Às vezes, a frase “deixa, eu faço” vem mais rápido do que o próprio pensamento. E, quando finalmente para, é como se não sobrasse tempo nem energia para se escutar. Isso não acontece porque você “não sabe se cuidar”, mas porque aprendeu, desde cedo, que ser uma “boa mulher” é dar conta de tudo: maternidade, carreira, casa, relacionamento, família, corpo, humor… e ainda sorrir.
Só que o corpo não negocia. Ele avisa: na insônia, na ansiedade que aperta o peito, na tristeza que não passa, nas dores que não encontram explicação clara nos exames. Muitas vezes, o que adoece não é só o excesso de tarefas, mas o excesso de silêncios: coisas engolidas, sentimentos guardados, limites ultrapassados. Autonomia afetiva é justamente começar a ouvir esses sinais sem se tratar como exagero. É parar de se desmentir. Em vez de “não é nada”, tentar dizer a si mesma: “é algo, sim, e eu preciso olhar para isso”.
Desenvolver autonomia emocional é um processo, e ele começa com passos pequenos e, ao mesmo tempo, potentes. Um deles é dar nome ao que você sente. Parece simples, mas não é trivial. Reconhecer: “estou com raiva”, “estou com medo”, “estou magoada”, “estou cansada”, “estou feliz e não quero abrir mão disso hoje”. Quando você nomeia, o sentimento deixa de ser um peso amorfo e se transforma em algo com o qual é possível dialogar. Outro passo é questionar os roteiros prontos: quantas decisões suas vêm acompanhadas da frase “porque uma boa mãe/parceira/profissional deve…”? Vale se perguntar: isso realmente faz sentido para mim, hoje? Ou é apenas um script antigo que eu continuo obedecendo sem perceber?
Há também o treino, nem sempre fácil, de dizer “não” sem escrever um romance de desculpas. Dizer “agora não posso”, “isso eu não dou conta”, “não quero dessa forma” é um ato de cuidado com a própria saúde. Você não se torna menos amorosa por ter limites; na verdade, limites claros permitem que o seu cuidado seja mais verdadeiro, e não sustentado por exaustão e ressentimento. Amar não é aceitar tudo, nem viver com medo constante de desagradar, de ser abandonada, de ser criticada. Onde o medo é permanente, a relação deixa de ser abrigo e vira ameaça.
Buscar espaços de escuta segura também faz parte dessa construção: terapia, grupos de apoio, rodas de conversa, amigas com quem seja possível falar sem medo de julgamento. Lugares em que você possa existir inteira, sem a máscara da “mulher que aguenta tudo”. Autonomia emocional não é um ato solitário de heroísmo; ela cresce quando você é escutada e, ao mesmo tempo, começa a se escutar com mais gentileza.
Neste Dia Internacional da Saúde da Mulher, talvez o maior gesto de homenagem a si mesma seja incluir a sua autonomia afetiva no seu conceito de saúde. Pensar que se cuidar não é apenas fazer check-up, mas também revisar quais relações te fortalecem e quais te esvaziam, em que momentos você se sente vista e em quais você desaparece um pouco para caber nas expectativas alheias. Se, depois de ler este texto, você se fizer ao menos uma pergunta honesta – “em que lugar da minha vida eu tenho me abandonado?” – um movimento importante já começou. E movimentos assim, ainda que discretos, mudam trajetórias inteiras.
Quem cuida da mulher que cuida? A resposta, aos poucos, pode passar também por você mesma. Não para dar conta de tudo sozinha, mas para não se perder de si enquanto cuida, ama e se doa. Porque a sua história, o seu corpo e o seu coração merecem um lugar de prioridade na sua própria vida.
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Psicanalista vice presidente do Instituto Nacional de Psicanalise Clinica
Fundador da Ashells Psicanalise Clinica
Atuação com dependência emocional, terapia de casais e psicanalista organizacional



